Arlindo Barbeitos (Angola)

por João Miguel Henriques

amanheceu
quem diria
que inda agora hoje era ontem
e que cacos ao longe não iam ser olhos de bicho
quem diria

que patos-bravos mergulhando não eram jacarés
e que lagartos azuis iam a quatro patas
quem diria
que bosta de elefante não eram pedras
e que guerrilheiros antigos iam pisar a sua mina
quem diria
que o professor cismando não era surdo
e que os alunos não iam falar a sua língua
quem diria
que a moça do Muié
que inda agora era virgem logo já não é
quem diria
que inda hoje era ontem
amanheceu

 

Escritor e académico angolano, Arlindo do Carmo Pires Barbeitos nasceu em 1940, em Angola. Estudou em Luanda e em Lisboa. Depois de dez anos emigrado na Europa, regressou em 1971 a Angola, onde foi professor nas bases do MPLA da frente leste. Atingido por doença, voltou à Europa e, a partir de 1973, dedicou-se na Alemanha a um doutoramento em Etnologia, enquanto desempenhava funções de assistente no Instituto de Etnologia da Universidade de Berlim Ocidental. Em 1974, em Frankfurt, um editor alemão, amante da literatura africana, deu a conhecer a sua poesia. Em 1975, após a independência, Arlindo Barbeitos regressou à pátria, onde veio novamente a ser professor universitário.

Marcada pela História recente do povo angolano, a sua poesia é, para além de testemunho e meio de conhecimento de uma realidade concreta, um instrumento de libertação, pela densidade do verso e a força da palavra. Os seus motivos maiores de inspiração são a experiência do exílio, a situação colonial e a luta pela independência.

Na sua obra, destacam-se os títulos Angola, Angolê, Angolema (1977), Nzoji (1979) e O Rio: Estórias de Regresso (1985), que foi o seu primeiro romance.

Faleceu em Luanda em 31 de Março deste ano de 2021.

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