Aquém-fronteiras

por João Miguel Henriques

Esta interminável pandemia, cuja chamada segunda onda parece estar a ser bem mais grave embora curiosamente bem menos restritiva que a primeira, tem obrigado as pessoas a um saudável turismo interno (quando não até interior, sempre que a viagem é de auto-conhecimento), o conhecido “vá para fora cá dentro”, ao qual têm repetidamente apelado as autoridades húngaras e que explica em parte porque é que certa hotelaria de província nunca viu melhores dias.

Motivado também eu por essa sugestão, e aficionado que sou de estadias longe da confusa e ruidosa capital, iniciei há coisa de um mês a famosa Országos Kéktúra, a Rota Azul Nacional, esse longo percurso para caminheiros, com mais de mil quilómetros, unindo a norte os extremos ocidental e oriental do país. Ando a fazê-lo na melhor das companhias, de guia e mapa em punho, gentilmente oferecidos a título de oportuno presente de matrimónio, e aos nossos passos abre-se aquela Hungria profunda, dos campos de cultivo entremeados por bosques de cervo e de musgo, tudo isto salpicado por vilas e aldeias de costumes antigos e bem enraizados, lugares ora históricos ou simplesmente parados no tempo, onde habita e trabalha toda a aquela gente para quem a capital é rumor distante e peso excessivo.

Vamos aproveitar este fim de semana longo para mais um par de valentes caminhadas, afogados nas cores e cheiros deste Outono, e de olho atento ao sinal azul e branco que nos guia e mantém no rumo certo. Aquém-fronteiras, apesar de quando em vez um pé mais afoito nos colocar oficialmente do outro lado. É que a rota azul roça por vezes a fronteira eslovaca, assinalada em pleno bosque por marcos de pedra além dos quais o país é já outro, apesar do mesmo chão, da mesma floresta. Por instantes salto para o outro lado, além-fronteira, só pelo prazer de no regresso poder desobedecer a uma imposta quarentena. E uns quilómetros mais à frente, num fronteira de província agora encerrada por enormes blocos de cimento, a fazer lembrar outros tempos ou a temer tempos vindouros, cruzamo-nos com uma triste festa de família. Do lado húngaro mãe e pequena filha, do lado eslovaco casal de avós de máscara, e ao meio, pousado em cima do violento bloco de pedra, um bolo cravejado de velas, para comemorar sem beijos nem abraços o aniversário da criança. A menina sorri, convida-nos para uma fatia de bolo. Agradecemos mas seguimos caminho, que a tarde avança como nós a passos largos.

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