Aos 97 anos, o clínico geral no activo mais velho da Hungria ainda encontra alegria na medicina

por LMn

Passou por guerras, sobreviveu ao Holocausto, atravessou epidemias e pandemias. Mas o cansaço não o vence. E, com quase um século de vida, Istvan Kormendi nem pondera fechar o seu consultório em Budapeste.

O médico de clínica geral no activo mais velho da Hungria tem 97 anos e, todos os dias, recebe doentes aos quais, por estes dias, administra vacinas contra a covid-19 com uma devoção inabalável à sua profissão.

Afinal, a prática da medicina corre-lhe nas veias. Istvan Kormendi recorda ter sido inspirado desde a sua primeira infância pelo exemplo do pai, que também era médico de clínica geral. E ainda vive no velho apartamento, com um enorme pé direito, localizado na margem do rio Danúbio do lado de Buda, para onde a sua família se mudou quando ele tinha apenas 6 anos.

“Todo o ambiente me destinou para isto… E quando se tornou óbvio que eu queria ser médico, o meu pai apresentou-me à profissão”, contou, sentado atrás de uma secretária antiga, que o seu pai comprou em 1920.

Para Istvan Kormendi, que foi inoculado com a vacina contra a covid-19 em Janeiro, a pandemia do coronavírus é apenas a última de tantas convulsões e desafios que marcaram a sua longa vida. Originário de uma família judaica, arriscou a vida a assistir a palestras de forma ilegal. Isto porque, em 1941, ao abrigo da legislação anti-semita que vigorava na Hungria, não lhe era permitido frequentar a Faculdade de Medicina.

Conseguiu, porém, sobreviver ao Holocausto. Mas não sem marcas, tendo sido obrigado a trabalhos forçados. Para sobreviver, levava consigo alguma comida enlatada e dois dos seus livros favoritos sobre farmacologia e medicina interna. Só foi admitido na universidade em 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial.

“Uma grande bênção”

O seu diploma tem agora mais de 70 anos, mas Istvan Kormendi continua a aprender e a aplicar novos tratamentos todos os dias, e utiliza a mais recente tecnologia informática para marcar consultas e gerir os dados dos pacientes — uma tarefa hercúlea se se tiver em conta todas as vacinas que tem de fazer.

No entanto, não se queixa, descrevendo as vacinas contra a covid-19 como “uma grande bênção”, numa altura em que uma terceira vaga da pandemia fustiga a Hungria e grande parte do resto da Europa.

“Tive de lidar com muito stress ao longo da minha vida e, apesar disso, a constante prontidão mental e o trabalho mantiveram-me nesta condição, tal como os desportistas se mantêm em forma através do treino”, avalia. O segredo da sua longevidade estará, porém, nos seus genes, ainda que o médico ajude a informação genética com caminhadas.

“Digo a mim mesmo, vamos lá subir, primeiro devagar e depois ganho impulso… Aqueles que se sentam ociosos rapidamente perdem a força, tanto física como mental.”

A mulher, que diz ter sido o amor da sua vida, morreu recentemente. A filha, também médica, vive em Viena, e ele sente falta dos netos, e do seu único bisneto, que vive em Copenhaga. Não os vê desde o ano passado, devido à pandemia. Mas, mesmo com as saudades, encontra ânimo para viver o dia-a-dia nos seus pacientes.

Actualmente, o clínico geral tem uma lista de 300 pessoas que o procuram, às quais pretende continuar a dar resposta — enquanto se lembrar dos nomes de novos medicamentos e conseguir resolver problemas informáticos.

“Se tivesse de dizer como quero terminar, bem, diria que se vivesse até aos 100 anos, então, após um dia de trabalho, sentindo um cansaço agradável, iria dormir e não acordaria mais.”

Krisztina Than/Reuters/Público
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