Ao pé dos castelos

por João Miguel Henriques

Falo-vos hoje dos castelos, para que estas cartas também registem um elemento tão comum às paisagens lusa e magiar. Cidades ou povoações coroadas de burgos imponentes, edificados sobre dura rocha ou cume sobranceiro, para defesa e vigia em tempos de conflito. Poderia enumerar aqui os tantos que, tanto lá como aqui, visitámos nos últimos anos, de Visegrád, na curva do rio, a Portel, a guardar um laranjal.

Mas ela hoje lembra-me os muito mais que jamais visitámos, todos aqueles de que só conhecemos o grave portão de entrada, o contorno da muralha, sem que jamais neles entrássemos com demora. Por falta de tempo, foi por vezes, que essas visitas põem-se largas. Também por indignação pelo exagerado preço da entrada. Houve sempre um qualquer obstáculo e sempre ficámos ao pé, à porta, nesse momento de uma quase visita, de um conhecimento que tão somente chegou a reconhecimento. Füzér, Szigliget, Viana do Alentejo. Estavam fechados, talvez? Tens ideia? Eu já não me lembro.

Reparamos então que, nesse sentido, cumprem os castelos a sua função primordial, a de não deixar entrar ninguém, um estranho que seja. E além disso há que dizer, em abono da verdade e talvez para ofensa dos mais sensíveis, que todos os castelos são mais ou menos parecidos. Cada um tem o seu nome e a sua história, é certo, o seu dono e agressor, mas mais pedra menos pedra, todos os castelos são iguais, têm todos a mesma função, a mesma tendência para a ruína. O que muda, e muito, é tudo aquilo que os rodeia, horizontes e paisagens, que é no fundo o verdadeiro motivo pelo qual são visitados. A pessoas pagam a entrada e demoram o seu tempo por tudo aquilo que o olhar abarca desde o cimo de uma torre ou da ameia de uma muralha. Castelos são pretextos para vistas e para imãs à saída. Temos em casa já uma boa coleção, comprada em todos aqueles castelos não visitados, dos quais conhecemos apenas a minúscula loja de recordações e aos quais recusámos o tempo e o bilhete. Com eles contraímos dívidas de regresso. Ela diz-me que temos mesmo de os visitar. Se for contigo, penso, vou a todos os castelos do mundo.

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