António Jacinto (Angola)

por João Miguel Henriques
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Vadiagem

Naquela hora já noite
quando o vento nos traz mistérios a desvendar
musseque em fora fui passear as loucuras
com os rapazes das ilhas:
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
(que bem que canta o Chico!)

e a noite quebrada na luz das nossas vozes
Vieram também, vieram também
cheirando a flor de mato
– cheiro grávido de terra fértil –
as moças das ilhas
sangue moço aquecendo
a Bebiana, a Teresa, a Carminda, a Maria.
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
a vida aquecida com o sol esquecido
a noite é caminho
caminho, caminho, tudo caminho serenamente negro
sangue fervendo
cheiro bom a flor de mato
a Maria a dançar
(que bem que dança remexendo as ancas!)
E eu a querer, a querer a Maria
e ela sem se dar
Vozes dolentes no ar
a esconder os punhos cerrados
alegria nas cordas da viola
alegria nas cordas da garganta
e os anseios libertados
das cordas de nos amordaçar
Lua morna a cantar com a gente
as estrelas se namorando sem romantismo
na praia da Boavista
o mar ronronante a nos incitar
Todos cantando certezas
a Maria a bailar se aproximando
sangue a pulsar
sangue a pulsar
mocidade correndo
a vida
peito com peito
beijos e beijos
as vozes cada vez mais bebadas de liberdade
a Maria se chegando
a Maria se entregando
Uma viola a tocar
e a noite quebrada na luz do nosso amor…

 

António Jacinto do Amaral Martins nasceu no Golungo em 28 de Setembro de 1924 e realizou seus estudos liceais em Luanda. Foi empregado de escritório e técnico de contabilidade. Destacou-se como poeta e contista da geração Mensagem e como membro do Movimento de Novos Intelectuais de Angola, tendo colaborado com produções suas em diversas publicações, nomeadamente “Notícias do Bloqueio”, “Itinerário” e “O Brado Africano”

Por questões políticas foi preso em 1960, sendo desterrado para Campo de do Tarrafal, em Cabo Verde, onde cumpriu pena até 1972, ano em que foi transferido para Lisboa, sendo-lhe imposto o regime de liberdade condicional por cinco anos. Em 1973 evadiu-se de Portugal e foi para Brazzaville, onde se juntou à guerrilha do MPLA.

Após a independência de Angola foi co-fundador da União de Escritores Angolanos, e participou activamente na vida política e cultural angolana, sendo Ministro da Cultura de 1975 a 1978. Ganhou vários prémios, nomeadamente o Prémio Noma, Prémio Lotus da Associação dos Escritores Afro-Asiáticos e Prémio Nacional de Literatura. Em 1993, o Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD), instituiu em sua homenagem o “Prémio António Jacinto de Literatura”

 

A 23 de Junho de 1991, faleceu com 66 anos de idade.

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