António Costa precisa de ajuda. Temos de ser todos por todos

por LMn

Os cidadãos sabem o que deles se exige. Ficar em casa. Ficar em casa. Ficar em casa. Ninguém pode se queixar da complexidade da mensagem. Não é.

Por Carlos CarreirasPresidente da Câmara Municipal de Cascais

O Governo culpa o relaxamento das pessoas. As pessoas atacam o Governo. Uns rebelam-se contra a dureza das medidas. Outros acham que isto só lá vai com um polícia em cada esquina. Exércitos divididos não ganham batalhas. A covid-19 está em guerra aberta contra os portugueses. E nós, em vez de sermos um só corpo contra a pandemia, assistimos à frivolidade dos que passeiam trela sem cão, ao egoísmo dos atletas de ocasião ou aos extremistas da política da opinião. Dizer que a culpa é dos portugueses é admitir que um Governo não serve para nada. Dizer que a culpa é do Governo é isentar de responsabilidade cidadãos ou grupos de indivíduos que não sabem o que fazer à liberdade. Este é o caminho que nos está a arrastar para o fundo do poço. Estamos em queda livre. Somos em janeiro de 2021 o que a Itália foi para o mundo em março de 2020. Escrevo e ouço o som da tragédia: 218 mortos. Em 24 horas. O dia mais negro. Mais de 2000 vidas interrompidas. Famílias destroçadas. Comunidade abaladas. Só nos primeiros dias do ano que, ingenuamente, pensávamos ser de guinada para um amanhã melhor.

Perdemos tanto. Porém, muito há ainda por salvar. Precisamos urgentemente de ajudar o Governo a ultrapassar este momento crítico. Tenhamos a consciência de que este é, muito provavelmente, a hora mais decisiva da nossa vida coletiva. Citando o líder da Organização Mundial de Saúde, o mundo está à beira de um fracasso moral catastrófico.”

Como pedia o ex-ministro Adalberto Campos Fernandes, num apelo humanitário que subscrevo inteiramente, temos de pôr a mão na consciência. Temos todos de pôr a mão na consciência. Cada um tem o dever de, à sua escala, travar a luta das nossas vidas contra este inimigo cobarde e mortal.

Os cidadãos sabem o que deles se exige. Ficar em casa. Ficar em casa. Ficar em casa. Ninguém pode se queixar da complexidade da mensagem. Não é. Podemos encontrar desculpas numa das várias dezenas de exceções para nos excluirmos de leis que deveriam ser iguais para todos. Mas, no limite, a mensagem é muito simples: isolamento, recato, paciência. Salvar vidas está mesmo ao alcance de cada um de nós. E nem é preciso coragem ou uma qualquer virtude típica dos super-heróis. Basta humanidade, decência e serenidade.

Às autarquias exige-se que continuem a ser o braço armado do Estado contra a covid-19. Como a pandemia veio expor, a descentralização de competências é um processo critico – não apenas para a manutenção do Estado Social mas sobretudo para salvar vidas.

Quanto à Câmara que tenho o privilégio de servir, o Tribunal de Contas colocou-nos no primeiro lugar nas despesas no âmbito covid-19. Que fique claro que não pouparei um euro na defesa dos meus concidadãos. Pela minha parte, farei tudo o que estiver ao meu alcance para proteger as pessoas, esperando que elas façam o mesmo. Porque, como é evidente para todos, os políticos e os cidadãos não vencerão a pandemia de costas voltadas. Queremos ajudar o Governo indo ao limite das nossas capacidades e, não raras vezes, para além das nossas competências. Uma vez que, incompreensivelmente, as aulas prosseguem, estamos prontos para arrancar com um piloto de testagem nas nossas escolas, públicas e privadas, com os novíssimos testes antigen nasal dos laboratórios Roche. São testes rápidos, muito fiáveis e menos agressivos do que o PCR tradicional, que nos permitirão muito rapidamente encontrar e isolar casos na comunidade. Se temos de manter as escolas a funcionar, então a nossa obrigação, como responsáveis políticos, é dar aos pais e aos professores a garantia de que os seus filhos e alunos estão seguros. Vamos alargar a testagem aos familiares próximos dos positivos, reforçaremos as equipas de inquéritos epidemiológicos com funcionários públicos municipais e seremos muito assertivos no enforcement da legislação para o espaço público e atividades económicas. Em tempo de emergência não pode haver lugar à condescendência.

E, porque atrás falei de empresas, é com as empresas que começaremos a trabalhar na perspetiva de, localmente, produzir vacinas e apoiar todo o processo de vacinação que tem de ser rapidamente agilizado. Em Cascais há essa capacidade instalada, em empresas líderes no seu setor, que pode ser colocada ao serviço das pessoas. É urgente que o Governo se bata pela possibilidade da produção ser descentralizada.

Quanto aos membros do governo, não consigo imaginar o momento difícil e a pressão por que estão a passar homens e mulheres que, à sua maneira, se entregaram á causa pública.

Desejo sinceramente que cada ministro, cada secretário de Estado, vá ao fundo da sua alma mobilizar o que restar de força, coragem e bom senso. Nunca como agora foi tão literal a expressão: milhares de vidas dependem de vós. Portugal exige que se transcendam. Que sejam maiores do que as vossas circunstâncias. Não se inibam com os erros do passado. Tenham a humildade de olhar em frente, para salvar o que precisa de ser salvo hoje e amanhã. É isso que, à minha escala, tenho procurado fazer.

Uma palavra final para o primeiro-ministro António Costa: não se preocupe com a opinião pública. Ela muda com a paixão do momento. A única palavra que, para Vossa Excelência, deve ser merecedora de valor e atenção é a dos seus conselheiros técnicos, dos médicos e dos cientistas. Ouça a ciência, ignore a ideologia. Confie nos técnicos, sacuda a tática. Feche as escolas. Reajuste os calendários académicos. Mande os alunos para casa. Se isso não acontecer, terei de apelar à desobediência pública dos pais para que deixem os seus filhos em casa.

Reúna os melhores dos melhores, da esquerda e da direita, de cima ou de baixo, e faça o que tem de ser feito. Só consigo imaginar quão complexas e dilacerantes são as escolhas que V. Exa enfrenta. Mas coloque a saúde à frente da economia. Porque se não o fizermos, se subsistir a ideia de que sacrificámos vidas por calendários escolares, que destruímos famílias para manter comércio aberto, perderemos toda a autoridade moral, toda a humanidade, toda a força do vínculo social que faz de Portugal uma nação una e indivisível há quase novecentos anos.

Faça o que tem de ser feito. Tem um país que depende de si – e de cada um de nós.

Fonte: https://ionline.sapo.pt/

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