Anneliese

por Luís Serpa

– Shhhhiu, não faças barulho…

Fazia amor a Anneliese, uma grande alemã com grandes olhos azuis, grandes pernas e grandes seios enquanto Gianni, seu marido, dormia ao lado dela na cama. O quarto estava completamente às escuras; o colchão deles, no chão, não era muito espesso. Bastava-lhe pôr o rabo um bocadinho para fora da cama e ficava ao meu alcance, deitado de lado no chão. Eu sabia que o menor barulho acordaria o senhor e pedia a todos os deuses que Anneliese se controlasse. Ele era grande, também, e um bom atleta, os músculos hebdomadariamente trabalhados no ginásio “California” do quarteirão.

– Sshhhhiu, não faças barulho…

Esta mistura de perigo, invisibilidade, silêncio e imobilidade quase total duplicavam o meu prazer, e o dela também. Anneliese mexia o rabo muito devagarinho, muito pouco, mas a cada movimento uma descarga eléctrica atravessava-me o corpo. Eu mantinha uma mão na boca dela. Com a outra, percorria o seu corpo grande como um longo petroleiro, mas branco. Nas ancas, a temperatura do corpo parecia aumentar, como se o calor que vinha do sexo chegasse à superfície – é assim que os vulcanólogos prevêm as erupções vulcânicas, a temperatura à superfície da terra aumenta devido ao aumento de pressão. Anneliese gostava de se masturbar enquanto eu a penetrava e com dois dedos apertava-me o membro – o que dizia ela, me proporcionava as vantagens da sodomia juntamente com as da penetração “normal”. Eu não estava completamente de acordo, mas de momento só pensava no marido, que tinha um cargo elevado num dos bancos privados mais alto de gama de Genebra e era, acessoriamente, o ser mais arrogante que eu jamais tinha encontrado. Ou pelo menos parecia-me. E pensava na Anneliese, no seu corpo tão sólido e bonito.
Nunca imaginara, no início da nossa aventura, que um dia a viria a amar tanto, tão completa e cegamente.

– Shhhhiu, não faças barulho…

O ritmo da respiração de Anneliese acelerava-se. O cheiro doce do sexo espalhava-se pelo quarto, pela cidade, pela noite toda. Ela já tinha tido um orgasmo nessa noite e eu imaginava a dificuldade que tinha em conter-se: normalmente fazia muito barulho, arranhava-me as costas e dava pontapés no ar como para esconjurar os diabos e a má cosnciência. Amava o marido, pelo menos assim mo dizia, e nunca o tinha enganado antes. A sua pele branca estava fosforecente.

Ter que controlar-se era um sofrimento para ela : decidi-me a acabar, um pouco a custo. Queria continuar, imóvel como um chinês, mas não podia correr o risco de o Gianni acordar, acender a luz e ver-me na mulher.
– A próxima vez tenho que tirar a tomada da lâmpada. – Foi a última coisa que pensei antes do orgasmo. Há qualquer coisa de especial numa ejaculação que veio de uma forma tão controlada, tão voluntária, tão reflectida, em que tivémos tempo de degustar cada sensação como um provador de vinho degusta cada gole. Anneliese queria sair da cama: fiz-lhe sinal que não. Voltou-se para mim e começou a acariciar-me o sexo, ainda quente, molhado, meio-tenso. Nas orelhas, os seus lábios diziam-me, sem que um som deles saísse, que queria mais.

Anneliese e Gianni eram meus vizinhos : moravam no segundo andar do prédio grande, velho e imponente no qual eu há muitos anos vivia. Ela era de Düsseldorf, uma das poucas cidade alemãs de que gosto. Falámos do Dr. Jazz, um bar agora fechado cuja dona tinha uma voz que fazia o Louis Armstrong passar por castrato, e de como aquela cidade tão burguesa na aparência pode e sabe divertir-se ao menor pretexto. Duas noites depois de se terem mudado, ouvi um barulho por cima de mim, em plena noite. Parecia que havia um rato entre os dois andares, mas em breve o barulho terminou e apercebi-me que faziam amor. Era um pouco triste: tic tic tic e hop, acabou. Tic tic tic. Ouvia aquele barulho cerca de duas vezes por mês, e ao princípio aquilo divertia-me. Mas depois começou a encher-me de ciúmes, uns ciúmes doentios que vinham juntar-se a todos os outros motivos que eu encontrava, contra minha vontade, para detestar o Gianni : o seu dinheiro, a sua beleza, a sua mulher, que vim a amar ao ponto de entrar no quarto conjugal à noite para lhe fazer amor, pensando a cada movimento “este é para o teu banco”, “este é para o teu Porsche” – o que me irritava profundamente porque não sou, nunca fui, invejoso, e detestava a ideia de não conseguir controlar aquele sentimento. Pelo menos até conhecer este metro e oitenta de loira rugidora, loira como as que nos livros nos fazem sonhar e no cinema desejamos.

Uma noite encontrei-os na entrada do prédio e convidei-os para jantar, de improvisto. Já nos tínhamos cruzado várias vezes, e algums delas parava para falar com o Gianni nas escadas. Eles aceitaram; durante o jantar, involuntariamente, toquei com o meu pé no pé dela. Antes de ter tempo de me aperceber, senti os dois pés dela em torno do meu. Com o marido eu partilhava as ideias políticas, o gosto pela comida e pelos bons vinhos e mais nada: eu era, fui durante muito tempo, um pobre sem cheta, a tentar anos sem fim fazer um nome no teatro e obrigado a sobreviver servindo copos nos bares in de Genebra. O insucesso, a amargura, a falta de dinheiro tinham afastado de mim as mulheres. Tinha a impressão de não ter vivido a minha vida. Esta não passava de um permanente esboço, sem nada que a concretizasse, a tornasse real. Perguntava-me se um dia poderia começar a vivê-la em versão definitiva… A perspectiva de uma aventura, vindicativa e passageira, com a bonita burguesa do andar de cima, atraída por um artista boémio, barrigudo e careca pareceia-me cativante. O marido dela viajava muito, eu tinha muito tempo livre e ela trabalhava a tempo parcial: não se podia pedir melhor concurso de circunstâncias. O que eu não tinha previsto era que me enamoraria dela a este ponto, doentio.

No dia seguinte ao jantar ela veio bater-me à porta. Fomos imediatamente para a cama, sem uma palavra. Anneliese urrava como se um incêndio se tivesse declarado num depósito de dinamite. O marido ia ouvir-nos, onde quer que estivesse.
– Não sejas infantil: ele está em Londres – respondeu-me. Não nada mais contraditório do que a aparência de uma mulher alemã e o que ela se torna enquanto faz amor. Nunca vi mulheres à procura de prazer tão metodicamente, tão vorazmente, tão ferozmente como elas. Anneliese gostava de se acocorar em cima de mim. Via o meu sexo entrar e sair dela como se estivesse a dar-me à luz a cada movimento. Masturbava-se com as duas mãos e olhava para mim, atenta. Ela controlava a velocidade e os movimentos com uma precisão diabólica, e foi assim que a imagem do escanção me apareceu pela primeira vez, porque o seu sexo dava a impressão de degustar o meu como nos manuais do perfeito provador de vinhos, começar pelos lábios, fazer rodar na boca, aspirar por dentro para o arrière bouche. E de cada vez que o meu sexo se enterrava nela perguntava-me se o poderia tirar ou se ela o ia guardar para mais tarde.

– Burro. Sem ti o teu sexo não vale nada.
– Porque é que com o Gianni não fazes barulho? – Já lhe tinha falado do “passos de rato” no tecto do meu quarto.
– Cala-te. Não se fala no Gianni.
Ela recusava-se a falar no marido, sinal que ainda não estava à vontade com o adultério. Por vezes era eu que subia a casa deles. Até que uma noite estava de tal maneira possesso de vontade dela que lhes entrei pelo quarto dentro, sexo em riste, depois de me ter despido no corredor, a cada instante à espera de ouvir a voz grave de Gianni. Anneliese dormia do lado da janela : percorrer o quarto pé ante pé, retendo a respiração, com uma erecção tal que já não tinha só medo de acordar o Gianni, mas de o trespassar foi uma prova interminável. Uma vez, na brincadeira, tínhamos falado na hipótese de se fazer amor assim, e tínhamos chegado à conclusão que era impossível. Contudo Anneliese não mostrou uma grande surpresa quando a acordei. Antes pelo contrário: parecia que me esperava. Com o meu sexo tocava muito levemente no dela, levemente, levemente. Sem um ruído, sem um movimento brusco, a minha mão na sua boca, esfregava o vulcão até sentir a lava aquecer. Entrar nela foi questão apenas de um movimento um pouco mais acentuado. O seu primeiro orgasmo fez Gianni mexer-se na cama. Ela põs-lhe uma mão no peito e ele adormeceu outra vez. E agora o segundo orgasmo aproximava-se e eu via a asneira em que me estava a meter. Mas a cada movimento milimétrico do seu pélvis eu mandava o marido ao diabo, e o Porsche e o banco e o dinheiro e pedia silenciosamente a esta mulher por quem estava pronto a deitar-me da ponte abaixo que deixasse tudo e viesse viver comigo – de qualquer forma eu teria que mudar de casa, já não suportava mais ver o grande mentecapto com um sorriso beato e novidades do último restaurante na moda onde tinha ido comer com A, B ou C. (e a minha senhoria não suportava mais as rendas em atraso).

A cadência dos passeios de ratinho tinha diminuído. Não faziam agora amor mais do que uma vez por mês; se se pode chamar àquilo fazer amor: tic tic tic tic tic. Nada de crescendi, nada desses magníficos hurros de teutão que acaba de consquistar o seu espaço vital, nada de excessos. Tic tic tic tic tic. Contudo, os meus ciúmes aumentavam, em vez de diminuir, e aquilo era-me cada vez mais insuportável. Nunca tinha sido ciumento, nunca tinha sido invejoso, Gianni no fundo era simpático, e eu tivera, antes da minha loucura pela Anneliese começar, bastante prazer em conversar com ele. Falávamos de política, de vinhos, de restaurantes – ele gostava de comer e tinha dinheiro para ir aos restaurantes de cuja existência eu só tomava conhecimento pelos jornais – e eu falava-lhe de livros, de teatro, de peças que estavam em cartaz na cidade: ele não era muito culto mas interessava-se por esse mundo, que lhe era totalmente estranho. Raramente mencionávamos temas pessoais. Anneliese assistia às nossas conversas, e intervinha frequentemente.

– Anneliese, estou doido por ti, deixa o teu marido – dizia-lhe.
– Estás doido ? E quem é que me vai dar de comer ? Com o dinheiro que ganhas nem o pequeno almoço eu poderia comprar.
– Nem jóias, casacos de pele ou Porsches. Ao diabo o luxo.
– Tu és doido, mas eu não sou. Fazes bem amor, mas é tudo. Não estou apaixonada por ti, e duvido muito que um dia venha a estar.
– Porque gosto tanto de ti?
– Porque só estás comigo quando o meu marido não está cá. Se estivesses comigo todos os dias não gostarias tanto de mim.
– Um dia ele vai saber. Um dia far-te-ei amor com ele ao lado.
– Pois, e ele dá-te um murro e tu perdes essa arrogância estúpida. – Anneliese sabia que eu detestava que dissessem que sou arrogante; quem poderia sê-lo nas minhas condições?
– Não sou arrogante. Ele é que é.
– Talvez, mas ele pelo menos tem razões para isso. Tu, só tens as tuas proezas sexuais, e essa esperança idiota de um dia seres reconhecido no teatro. Não chega para te amar. Por falar nisso, já encontraste fundos para montar esse teu último projecto? – Ela dizia aquilo para me magoar, porque estava perfeitamente a par da minha situação. De resto eu passava a vida à procura de fundos, e não sabia porque não desistia. Acho que era por falta de imaginação, ou de amor próprio. Ou então porque acreditava naquele aspirante a cantor que me dissera um dia “é a perseverância que paga, não o talento.”

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