Alexandre O’Neill (Portugal)

por João Miguel Henriques

Um adeus português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
*
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

 

Poeta português, Alexandre Manuel Vahia de Castro O’Neill de Bulhões nasceu a 19 de dezembro de 1924, em Lisboa, e morreu a 21 de agosto de 1986, na mesma cidade. Em 1948 foi um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, com o poeta Cesariny, José-Augusto França, António Pedro e Vespeira, tendo colaborado na Ampola Miraculosa, livro de colagens surrealistas, constituído por 15 imagens sem qualquer ligação e respectivas legendas, sem que entre imagem e legenda se estabelecesse um nexo lógico, o que torna altamente irónico o subtítulo da obra, «romance». Esta obra poderá ser considerada paradigmática do surrealismo português. Em 1950 O’Neill rompe com o Movimento Surrealista. Em 1953, e durante 40 dias, O’Neill ficou preso pela PIDE.

Não conseguindo viver apenas da sua arte, trabalhou em publicidade, sendo da sua autoria o lema publicitário “Há mar e mar, há ir e voltar”. Publicou uma crónica semanal no Diário de Lisboa e fez parte da redacção da revista Almanaque (1959-61).

Os seus textos caracterizam-se por uma intensa sátira a Portugal e aos portugueses, a que contrapõe a vida mesquinha, a dor do quotidiano, numa alternância entre o absurdo da vida e o humor como única forma de se lhe opor. Temas como a solidão, o amor, o sonho, a passagem do tempo ou a morte, conduzem ao medo e/ou à revolta, de que o homem só poderá libertar-se através do humor, contrabalançado por vezes por um tom discretamente sentimental. Este humor é, muitas vezes, manifestado numa linguagem que parodia discursos estereotipados, como os discursos oficiais ou publicitários, ou que reflecte a própria organização social, pela integração nela operada do calão, da gíria, de lugares-comuns pequeno-burgueses, de onomatopeias ou de neologismos inventados pelo autor.

As suas principais obras são: No reino da Dinamarca, Uma coisa em forma de assim, Já cá não está quem falou, Feira cabisbaixa: poemas de Alexandre O’Neill, De ombro na ombreira, Poesias completas 1951/1981, Poesias completas, entre outras.

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