Alda do Espírito Santo (São Tomé e Príncipe)

por João Miguel Henriques

Onde estão os homens caçados neste vento da loucura

O sangue caindo em gotas na terra
homens morrendo no mato
e o sangue caindo, caindo…
nas gentes lançadas no mar.
“Fernão Dias” para sempre na história
da Ilha Verde, rubra de sangue,
dos homens tombados
na arena imensa do cais.
Ai o cais, o sangue, os homens,
os grilhões, os golpes das pancadas
a soarem, a soarem, a soarem
caindo no silêncio das vidas tombadas,
dos gritos, dos uivos do dor
dos homens que não são homens,
na mão dos verdugos sem nome.
Zé Mulato, na história do cais
baleando homens no silêncio
do tombar dos corpos.
Ai Zé Mulato, Zé Mulato,
as vítimas clamam vingança,
o mar, o mar de Fernão Dias
engolindo vidas humanas
está rubro de sangue.
? Nós estamos de pé ?
Nossos olhos se viram para ti.
Nossas vidas enterradas
nos campos da morte,
os homens do cinco de Fevereiro
os homens caídos na estufa da morte
clamando piedade
gritando p’la vida,
mortos sem ar e sem água
levantam-se todos
da vala comum
e de pé no coro de justiça
clamam vingança…
…Os corpos tombados no mato,
as casas, as casas dos homens
destruídas na voragem
do fogo incendiário,
as vidas queimadas
erguem o coro insólito da justiça
clamando vingança.
E vós todos carrascos
e vós todos algozes
sentados nos bancos dos réus:
? Que fizestes do meu povo?…
? Que respondeis?
? Onde está o meu povo?…
…E eu respondo no silêncio
das vozes erguidas
clamando justiça…
Um a um, todos em fila…
Para vós, carrascos,
o perdão não tem nome.
A justiça vai soar.
E o sangue das vidas caídas
nos matos da morte,
o sangue inocente
ensopando a terra
num silêncio de arrepios
vai fecundar a terra,
clamando justiça.
É a chama da humanidade
cantando a esperança
num mundo sem peias
onde a liberdade
é a pátria dos homens…

 

Alda Neves da Graça Espírito Santo foi uma mulher pública e poetisa santomense. Nascida numa conhecida família da elite local,  frequentou a escola primária na então colónia de São Tomé, completando o ensino secundário na cidade do Porto, em Portugal (1948).

Recebeu formação como professora primária em Lisboa, ocasião em que se juntou à Casa dos Estudantes do Império, uma associação de estudantes das colónias portuguesas. Ali conheceu muitos dos futuros líderes nacionalistas da Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique. Foi uma das fundadoras, em Lisboa, da associação cultural Centro de Estudos Africanos (1951).

Alda da Graça voltou a São Tomé, trabalhando como professora. Logo se juntou ao advogado português Palma Carlos nas investigações  sobre as atrocidades cometidas pelas autoridades coloniais durante o massacre de fevereiro de 1953. Em 1965, foi presa em Lisboa por motivar a subversão no arquipélago.

Em 19 de setembro de 1974 liderou um grupo de mulheres vestidas de preto numa manifestação em frente ao palácio do governo por suspeitas de envenenamento da água e do sal pelos portugueses. Depois da independência, essa data foi declarada Dia Internacional da Mulher.

Alda escreveu o hino nacional de São Tomé, “Independência Total”. Na organização do país, após a emancipação, tornou-se Ministra da Educação e Cultura do governo de transição,  foi presidente da Assembleia Popular Nacional (1980-1990) e, desde  1987 até à sua morte em 2010, presidiu à União de Escritores e Artistas de  São Tomé e Príncipe (UNEAS).

Como poetisa, publicou em diversas antologias, sendo autora dos seguintes livros: É nosso o solo sagrado da terra (1978), Mataram o rio de minha  cidade (2002) e A poesia e a vida (2006).

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