ÁFRICA, ÁFRICAS

por Luís Serpa

O saco de pedras que cada um de nós carrega aos ombros aligeirou-se-me bastante: umas foram para a pedreira da vida ser trituradas e transformadas em cimento, outras ficaram mais leves. Poucas estão iguais. O que me trouxe à Guiné está resolvido. Isto é: não resolveu nada, mas só um tolo esperaria resultados ao fim de uma reunião. Abriu a porta, pelo menos. Temos o dedo grande do pé dentro da sala. O próximo passo? Não sei. Foi dinheiro deitado à rua? Não sei. Vale a pena preocupar-me? Não.

Em contrapartida, este regresso a África ao fim de vinte anos confirma o que sempre pensei: o enorme paternalismo do Ocidente em relação a estes povos roça o racismo – quando não o penetra completamente. Ruas esgotos a céu aberto, com mais buracos do que as crateras lunares, pobreza a cada esquina – verdade seja dita: não vi miséria, só pobreza –, meninos e meninas «não-governamentais», homens de negócios inchados das melhores intenções, 4 x 4 rutilantes de novos… A África pós-colonial é igual em todo o lado.

O que deveria, pelo menos, suscitar uma séria reflexão no Ocidente. Porque aceitamos em África o que não aceitamos nos nossos países? Porque compactuamos com estas enormes desigualdades, tanto mais que existem por causa da «boa vontade», da «ajuda», da «solidariedade internacional»? O Ocidente, que tanto clama por igualdade, fomenta e financia a desigualdade – e pior – em África. Que é feito dos triliões de dólares que o Ocidente despejou aqui desde as independências, para se aliviar de uma má consciência totalmente injustificada? Qualquer tentativa de fazer seja o que for em África dependerá sempre do ministro x, do director de gabinete y, do «soba» z. Devo dizer, a bem da verdade, que estou aqui há muito pouco tempo. Estas reflexões não se aplicam especificamente à Guiné-Bissau, que até acredito possa ser diferente, com este novo governo. Ontem ouvi o ministro lançar uma ferroada irónica ao «soba» que nos acompanha e abriu as portas, coisa que me encheu de alegria e esperança tanto quanto me surpreendeu. O Ocidente tem a obrigação moral de fazer uma análise aprofundada de tudo o que fez em África desde os anos sessenta. Não será amanhã a véspera desse dia? Não. Mas talvez seja depois de amanhã. Uma viagem de mil léguas começa com um passo, como dizem os chineses, tão lestos a «ajudar» África.

Estive em Moçambique três vezes: a primeira de 1966 a 1974, a segunda em 1981, uma breve viagem num navio que me levou a Maputo, Beira e Nacala e a terceira de 1997 a 1999. Desta última estadia não quero sequer falar: foi o pior erro da minha vida, o pior par de anos que jamais vivi (enfim, pelo menos o segundo ano. O primeiro ainda foi assim-assim).  Da primeira, só posso dizer que aquilo não era bem África. O período colonial – não só nas colónias portuguesas, mas em todas – era uma versão muito parcial de África, uma versão pacificada, edulcorada. Nós, os colonos, tínhamos o melhor de cada país: empregados, segurança, um certo à-vontade material – pelo menos nas colónias, como em Moçambique, onde não havia «brancos pobres». Em alguns havia e não bastava ser branco para se «estar bem». Mas para as classes médias e altas não havia melhor forma de paraíso do que uma colónia africana, desde o Magreb até ao Cabo. As independências eram inevitáveis, o que tem de ser tem muita força, os países tornaram-se independentes, os colonos partiram, os governos coloniais foram substituídos por governos locais e os paraísos desapareceram. E por que foram substituídos? As independências não trouxeram nem prosperidade nem liberdade aos povos. Talvez seja altura de olhar para isso de frente, não? A melhor maneira de lidar com um problema é enfrentá-lo e não escondê-lo atrás das vestes diáfanas da hipocrisia. Apercebi-me disto em 1981, aquando dessa viagem no N/M LEIXÕES, a última viagem de um monte de sucata flutuante. Seis anos depois da independência, Moçambique estava devastado. Admitidamente, havia uma guerra civil – mas África nunca foi um continente propriamente pacífico. As guerras – que não eram civis, mas sim inter-tribais – eram uma constante no continente. Os colonialismos puseram-lhes fim ou pelo menos um interregno. E durante o período colonial havia uma guerra, também. Não é a guerra que justifica a desolação que então vi.

Veja-se, por exemplo, o caso do Ruanda (e do Burundi, mutatis mutandis): uma das críticas dos «anti-colonialistas» é que as diferentes guerras que eclodiram em África depois dos anos sessenta foram consequência das fronteiras traçadas pelas potências coloniais na conferência de Berlim de 1984 / 85. Azar dos azares, o Burundi e o Ruanda são os únicos países africanos cujas fronteiras se mantiveram inalteradas desde os tempos pré-coloniais. (Acresce que na África pré-colonial havia fronteiras e estas eram políticas, não eram culturais ou linguísticas: «De acordo com Wolfgang Döpcke, na África pré-colonial as sociedades africanas tinham uma ideia clara de territorialidade, marcada por fronteiras tipo zona, imperando uma «terra de ninguém» como área transfronteiriça. Como o Estado era definido política e não culturalmente, as fronteiras pré-coloniais separavam entidades políticas mas não linguísticas, étnicas ou culturais.» Fonte: https://www.janusonline.pt/arquivo/popups2010/2010_3_2_4.pdf)

Passei um ano no Burundi, a trabalhar para o ACNUR durante o genocídio do Ruanda. Poucos meses depois fui para o então Zaire, onde passei quase seis meses a trabalhar para o Comité Internacional da Cruz Vermelha, durante a tomada de poder por Kabyla pai. Penso que estes foram os meus primeiros verdadeiros contactos com África, com a África intemporal, violenta, anímica, selvagem de Conrad e de V. S. Naipaul. O que vejo na Guiné não tem nada a ver com o que vi nesses países, como é óbvio. A Guiné não está em guerra, civil ou outra. Mas os pontos comuns são muitos e são chocantes: o país não está em guerra mas parece que está. É certo que não se vêem armas nas ruas, não se vêem pedintes esfomeados, há homens de negócios a cada esquina (enfim, a cada lobby de hotel de cinco estrelas), ninguém assedia ninguém nas ruas.

Mas os sinais da «ajuda humanitária» estão em todo o lado: camionetas e barcos transformados em ruínas, prédios por acabar… Como escrevi na semana passada, tanto quem dá como quem recebe extrai mais benefícios de um veículo novo do que da respectiva manutenção. Nem sequer é um equívoco. É simplesmente uma enorme hipocrisia.

II

Escrevo estas linhas em Bissau… Hoje consegui finalmente estabelecer a diferença. Não escrevo estas linhas em África. Escrevo-as em Bissau, cidade onde viveram o meu Avô, onde o meu Pai quase nasceu e eu não sei se quererei um dia viver. Se bem… Esta manhã contratei um táxi para me dar um passeio pela cidade. Acordámos um preço à hora – eu sabia ser de mais, mas sempre detestei turistas de países ricos que vão para países pobres negociar centavos e aceitei. De resto, foi o mesmo que o José me fizera na segunda-feira. Fizemos uma hora e meia, dou ao rapaz – era um jovem chamado Abdul – o dobro do que tínhamos acordado por uma hora e disse-lhe para ficar com o troco. «Não, obrigado», respondeu. «Eu dou-te o troco». Já antes, no caminho de regresso ao hotel, ele pergunta-me se pode parar para comprar qualquer coisa de comer, pois ainda não comera nada. Digo-lhe que sim, obviamente e pergunto-lhe se ele tem dinheiro. Abdul estende-me meia dúzia de moedas: interpretara mal a minha pergunta e pensou que eu lhe estava a pedir dinheiro para comer também.

As pessoas não são amigáveis, são reservadas e distantes. Dignas. Por detrás dessa distância esconde-se a solidariedade de que me falava G., o dono da pizzaria. Tão pouco são agressivas e estes dois gestos de um chauffeur de táxi com quem contacto pela primeira vez tocaram-me bastante. Isto é, fizeram-me ver para lá do visível, que é o que se espera de quem viaja.

G. (o italiano) é céptico em relação a este governo e pela mesma razão. Cito-o de memória: «num país que vive do que lhe dão, a tentação de políticos ficarem com uma parte do dinheiro é grande.»

III

Isto dito: hoje fui passear para os mercados. Ao princípio ainda levei o saco da máquina fotográfica, mas depois deixei-o no táxi. Não era preciso. É verdade que não tirei muitas fotografias – raras são as pessoas que não se importam de ser fotografadas, ao contrário de Moçambique, por exemplo – mas não tive o mais pequeno sinal de perigo. G. diz-me que em nove anos sofreu uma tentativa de assalto, porque sabem que quando vai ao mercado leva muito dinheiro – e ficaram-se pela tentativa.

À primeira vista – uma semana é muito menos do que «primeira vista», mas passemos – a Guiné é um país pacífico e pacificado. Merece que se acredite nele e no seu futuro. Eu acredito e gostaria de contribuir para esse futuro. Vinha do jantar a olhar para os passeios e para as ruas esburacadas e pensei que se pudesse contribuir para tapar um metro que fosse de buracos já ficaria contente.

 

Luís Serpa, Bissau, 05/06/2021

Print Friendly, PDF & Email

Também poderá gostar de

O nosso website utiliza cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Aceitar Ler Mais

Privacidade