Ady Endre (1877-1919) – Terceira Parte

por Pál Ferenc

Ady é um poeta de motivação temática. Podemos seguir grupos específicos de motivos ao longo da sua poesia, tornando Ady único na literatura mundial. Os seus temas são: arte poética, amor (Leda, Csinszka), poesia de paisagem visionária: charneca húngara, poemas a procura de Deus, a luta pela existência – motivo de dinheiro, morte, poemas revolucionários etc..

Ady certamente foi influenciado pelos poemas de Baudelaire e Verlaine. Ele frequentemente usa elementos de simbolismo, temas recorrentes de Deus, Hungria e a luta pela sobrevivência. O seu simbolismo se manifesta na visibilidade e indeterminação de seus poemas. Cores (vermelho, preto, branco), poder sugestivo e magia de palavras específicas de Ady, associações de imagens incomuns, combinações concretas e abstratas e crescendo musical desempenham um papel significativo nos seus poemas de inspiração simbólica.

UM BEIJO BEIJADO A MEIO
Félig csókolt csók

O fogo de um beijo beijado a meio
frente a nós se inflama.
A noite é fria. Por vezes, corremos,
chorando, corremos,
e lá não chegamos.

Quantas vezes paramos. Abraçamo-nos.
Ardemos, trememos.
De ti me afastas: meus lábios só sangue,
teus lábios só sangue.
Hoje, núpcias não temos.

Um beijo consumado, gostaríamos
de morrer em paz;
mas falta esse beijo, esse fogo chama
e tristes dizemos:
amanhã. Amanhã.

O ÚLTIMO SORRISO
Az utolsó mosoly

Oh, que feia a minha vida,
oh, que feia a minha vida:
que belo morto serei,
que belo morto serei.

Mais belo meu ar de sátiro,
mais belo meu ar de sátiro:
terei um sorriso nos lábios,
terei um sorriso nos lábios.

Nos grandes olhos vidrados,
os grandes olhos vidrados,
alguém neles brilhará,
alguém neles brilhará.

Meus lábios frios, risonhos,
Meus lábios frios, risonhos,
agradecem os teus lábios,
agradecem os teus lábios.

NÚPCIAS DE FALCÕES NA FOLHAGEM
Héja-nász az avaron

Partimos. Vamos para o Outono,
uivando, chorando, perseguindo-nos,
dois falcões de asas desfalecidas.

Traz novos ladrões consigo Verão,
batem asas novas de falcão,
assanham-se combates de beijos.

Voamos do Verão, acossados voamos,
paramos, algures, no Outono,
penas eriçadas, com amor.

Estas as nossas últimas núpcias:
laceramos a carne um ao outro
e caímos nas folhas de Outono.

O PIANO PRETO
A fekete zongora

Louco instrumento: chora, brame, relincha.
Fuja quem vinho não tem,
É o piano preto.
Cego maestro golpeia, abana,
Essa é a melodia da vida.
É o piano preto.

Zumbidos na cabeça, lágrimas nos olhos,
Festim de meus desejos tão mutáveis,
Tudo isso, tudo, é o piano.
Sangue de coração ébrio e louco
À sua cadência se derrama.
É o piano preto.

UM POETA FUTURO

Egy jövő költő

Quando, nos jardins húngaros, um dia,
o homem acabar, a rosa, há-de
um jovem triste, santo, ficar, e
a carpir-se, por isso, de verdade.

Jovem futuro, invejo-te, pois
tua canção ressoará, então,
quando não mais houver quem sofra, oiça
nossa grande, húngara maldição.

Tradução de Ernesto Rodrigues

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