Ady Endre (1877-1919) – Segunda Parte

por Pál Ferenc

Um grande momento na vida de Ady Endre foi quando em 1903  conheceu a Brüll Adél, uma rica mulher casada de Arad (hoje Oradea), que morava em Paris na época e voltou para casa para uma visita. Leda (Ady a chamava assim) tornou-se sua musa. Seu desenvolvimento lírico foi ajudado pelo seu amor por Leda e pelas suas visitas a Paris.

Ady visitou Paris sete vezes entre 1904 e 1911, sentindo cada vez mais fortemente o atraso da Hungria, que exprimia não apenas em seus artigos  no Diário de Budapeste, onde publicou 500 artigos mas também nos seus poemas.  Sentia uma forte atração por Paris e pela Europa Ocidental mas não se sentia capaz de abandonar definitivamente sua pátria.

A sua segunda estada em Paris e o período de uma viagem pelo Mediterrâneo foram uma era fértil para a poesia. Seu terceiro volume de poemas, Novos Poemas, foi publicado em 1906 – este livro marca o nascimento da poesia húngara moderna – mas seu quarto volume, Sangue e ouro, trouxe verdadeiro sucesso e aclamação da crítica.

O OUTONO PASSOU EM PARIS
Párisban járt az Ősz

O Outono entrou ontem em Paris.
Pelo Boul’ Mich deslizou furtivo,
no ar quente, sob a folhagem surda,
e encontrou-se comigo.

Vagava justamente para o Sena
e na minha alma ardiam cantos-achas:
fumosos, bizarros, tristes, vermelhos,
da morte me falando.

O Outono tocou-me e sussurrou algo,
estremeceu o Boulevard Saint Michel,
zum, zum: revoluteavam estrada fora
folhas de árvores, alegres.

Um minuto: o Verão nem se deu conta,
e, rindo, o Outono fugiu de Paris.
Passou aqui; que passou só eu sei,
sob a folhagem de ais.

NA CHARNECA HÚNGARA
A magyar Ugaron

Piso uma região selvática:
na antiga terra lasciva, grama.
Conheço este campo selvagem:
é a charneca húngara.

Inclino-me ao solo sagrado:
algo corrói esta terra virgem.
Ei, ervas mergulhando, densas,
no céu: não há cá flores?

Entre raízes de selvagem
vinha, espio da terra a dormente
alma; o cheiro de flores passadas
sobe amorosamente.

Silêncio. Ervas ruins, a grama,
o joio, puxam, iludem, cobrem-me;
e um vento de risos desliza
sobre a grande charneca.

A PEDRA LANÇADA AO AR
A föl-földobott kő

Pedra lançada ao ar, na tua terra
caindo, pequeno país, regressa
sempre a casa teu filho.

Visita torres em série, longe,
tem vertigens, entristece, no pó onde
fora nascido cai.

Desejoso de partir, não consegue
fugir ao sentir húngaro, ou leve
ou já de novo aceso.

Sou todo teu no meu grande rancor,
grande infiel nos cuidados de amor
aflitivamente húngaro.

Pedra lançada ao ar, triste sem qu’rer,
pequeno país, tenho teu parecer
de maneira exemplar.

E, ai!, é sempre vã qualquer ideia:
cem vezes que me lances, voltarei
cem vezes, afinal.

Tradução de Ernesto Rodrigues

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