Adriano Moreira: antecipar 2020 em 1966

por LMn

Adriano Moreira completou no dia 6 de setembro 98 anos de uma vida intensa, totalmente comprometida com uma ideia de serviço à humanidade. O seu carácter, é marcado pela dupla dimensão de resiliência ética – que evoca o melhor da sólida tradição estóica – e pelo exercício do conhecimento, percebido como o único meio humano de conseguir perscrutar o futuro, vislumbrando-lhe os risos e as ameaças que, se bem identificadas, poderão ser neutralizadas para o bem-comum. Nada perceberemos desta personalidade, que constitui, talvez, o mais singular observador interveniente da história do último século português, sem esta unidade da teoria e da prática, sempre com esta a ser iluminada pela primeira, e a teoria a ser validada e afinada pela prática. Por isso, a vida de Adriano Moreira – incluindo a sua acção política como Ministro do Ultramar no Estado Novo ou dirigente partidário e deputado na Assembleia da República na III República – está totalmente vinculada às Universidades e às Academias de Ciências, as instituições que mais se aproximam (apesar dos solavancos e imperfeições inerentes a todas as criações humanas) dessa ideia de uma vida social que é capaz de se criticar e corrigir a si própria, antecipando ameaças e vencendo desafios.

A origem das Academias das Ciências, nos mais diversos países europeus, terá tido na imaginação dos Modernos a sua força propulsora. Francis Bacon começou a escrever a sua New Atlantis – uma obra utópica sobre o papel da ciência e da técnica na reorganização das sociedades humanas – por volta de 1623. De acordo com algumas pistas biográficas, esse impulso para tornar visivelmente dramáticas as expectativas de um novo mundo, onde a tecnociência elevasse a uma escala nunca testemunhada o “império humano” sobre a Natureza, teria nascido, como reacção imediata, a partir do contacto que o sábio britânico tomou com a edição da Civitas Solis, do infeliz Tommaso Campanella, obra que havia sido dada à estampa, em Frankfurt, também nesse ano de 1623. Tanto Bacon como Campanella partilharam uma visão épica acerca do valor da ciência como catalisador da história humana. Ambos acreditavam que o seu uso libertaria a humanidade da superstição, da doença, da pobreza, e de muitas outras modalidades de indignidade a cuja sujeição a sempre frágil condição humana parece condenada. Como sempre ocorre, os grandes fundadores tendem a ser imitados com exagero. A desmesura mimética do optimismo científico tornou-se numa ideologia fáustica, numa estratégia de relacionamento com o mundo que não hesitou em prescindir da verdade em prol do incremento do poderio, mesmo que essa predominância sobre as coisas não passasse de um efémero simulacro de sucesso, destinado a terminar de modo catastrófico.

De onde vem a ameaça, vem também o que salva, como nos recorda o imortal verso de Hölderlin. As Academias das Ciências foram e são, também, o lugar onde a procura da verdade tem lugar contra a lógica dos interesses e das conveniências. Contra o sanguíneo entusiasmo das correntes mais fáusticas, as ciências europeias sempre foram marcadas pelos mais modestos seguidores de Prometeu. A procura de uma vida humana plena e realizada exige uma ampla compreensão dos limites materiais e das condições de possibilidade que a matricial inserção da humanidade nas leis naturais da nossa casa planetária exige. E tal atitude implica uma exigência gnosiológica e prática. Um desafio lançado aos nossos sistemas de conhecimento, mas também às nossas tecnologias e aos nossos modelos de governação. Não há vida sem esperança no futuro. Mas só as esperanças alimentadas pela prudência e moderadas pela sabedoria podem garantir futuro e “sustentabilidade”, palavra, que agora, quando o futuro aparece como minguada possibilidade, não cansamos de nos repetir.

Quem quiser perceber o princípio fundamental que orienta o pensamento de Adriano Moreira, ao longo de mais de meio século, sobre as Universidades, as Academias e a missão do ensino superior no quadro das tarefas sociais do conhecimento, deverá (re) ler um texto notável publicado em 1961. Não partilhando o optimismo desmesurado, reinante nesse tempo já tão longínquo, caracterizado pelo desequilíbrio entre as tecnociências e as ciências sociais e humanas, Adriano Moreira propunha uma reorganização global do ensino e da investigação científica, através da introdução de um Ministério da Ciência e Educação, substituindo o então Ministério da Educação Nacional, mas evitando a pulverização da investigação científica entre duas culturas divorciadas (a das Tecnologias e a das Humanidades). Numa sociedade percorrida por novas e velhas ameaças, o saber deveria ser, cada vez mais, um esforço organizado, interdisciplinar, estratégico, visando a antecipação do futuro. Essa era, aliás, uma das razões principais para a aposta no desenvolvimento das ciências sociais, de que Adriano Moreira seria um dos mais importantes pioneiros em Portugal.

Escutemos estas palavras de Adriano Moreira, que, escritas em 1966, são dramaticamente ainda mais actuais em 2020:

“(…) há um domínio de angústia comum da humanidade que constitui o fulcro da autonomia e do universalismo das ciências sociais: esse domínio é essencialmente preenchido (…) pelos problemas suscitados pelas crises e revoluções contemporâneas, assim como pela evolução das ciências da natureza e das suas técnicas (…) já não são problemas de um ou de cada homem, são problemas do género humano estarrecido com o poder que alcançou, só ultrapassado pela sua ignorância.” ( p. 1246).

Ninguém sabe qual o desfecho da espiral de entropia em que todos os indicadores de civilização, esse outro nome para a atribulada habitação humana da Terra, mergulharam há muitos anos, e de forma impossível de ocultar na última década. Contudo, não foi por ausência de avisos sábios e alertas tão esclarecidos como atempados. Escritos em todas as línguas, e também em português, como este texto de Adriano Moreira, publicado há 54 anos, plenamente o comprova.

 

Por Viriato Soromenho Marques | DN

 

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