Adélia Prado (Brasil)

por João Miguel Henriques

Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça em ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.

 

Adélia Luzia Prado de Freitas (Divinópolis, Minas Gerais, 1935). Poeta, romancista, contista e autora de histórias infantis. Filha do ferroviário João do Prado Filho e da dona de casa Ana Clotilde Corrêa, ingressa em 1942 no Grupo Escolar Padre Matias Lobato, na cidade natal, onde se alfabetiza. Escreve os primeiros versos em 1950, aos 15 anos, após a morte da mãe. Nesse mesmo ano, termina os estudos no Ginásio Nossa Senhora do Sagrado Coração, entrando, em seguida, para o magistério na Escola Normal Mário Casassanta, que conclui dois anos depois, em 1953. Começa a dar aulas em 1955, voltando a estudar dez anos mais tarde: de 1965 a 1973, em companhia do marido, gradua-se em filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis. Embora tenha publicado em 1969 os versos A Lapinha de Jesus, em parceria com o escritor Lázaro Barreto (1934), considera sua estreia efetiva o livro Bagagem (1976), editado pela Imago por iniciativa de Affonso Romano de Sant’Anna (1937) e sugestão de Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987). Publica ainda um título de poemas, O Coração Disparado (1978), antes de lançar-se na prosa, com os contos Solte os Cachorros (1979) e o romance Cacos para um Vitral (1980). Na Prefeitura de Divinópolis, atua, entre 1983 e 1988, como chefe da Divisão Cultural e, entre 1993 e 1996, integra a equipa de orientação pedagógica. Sem deixar de dar continuidade aos seus escritos em prosa e verso, publica, em 2006, Quando Eu Era Pequena, primeiro trabalho dedicado ao público infantojuvenil.

 

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