A Semana (A Hét) – Teses de Abril (1917) de Lenin e Teses de Junho (2021) de Orbán

por András Gellei

Permitam-me um paralelismo histórico entre duas personalidades, uma russa (soviética) e uma húngara, que na ótica da Hungria de hoje, não é tão despropositada como parece à primeira vista – Comparar Lenin e Orbán e as suas ”Teses, as de Abril e as de Junho”

As Teses de Abril de Lenin. Um pouco de história.

As Teses de Abril foram um conjunto de princípios e diretivas do líder bolchevique soviético (publicadas no Pravda em 7 em abril de 1917) quando já estava em São Petersburgo depois do seu regresso do exílio na Suíça.

Nas Teses, Lenin apelava aos soviets a tomarem o poder com a famosa palavra de ordem ”Todo o poder aos soviets”. Denunciava a traição e ameaçava com o ”caixote do lixo da história” os liberais e sobretudo os social-democratas do Governo Provisório – Primeiro liderado pelo Príncipe Lvov, substituído em julho pelo destacado social-democrata Kerensky – que governou da Revolução de Fevereiro até a Revolução de Outubro (7 de Novembro de 2017).

No documento Lenin explicava que a Guerra Mundial era uma ”guerra burguesa do capitalismo” e que a paz e a saída da Rússia nunca aconteceriam enquanto a mesma burguesia estivesse no poder, válido wm especial para o traidor de classe, o social-democrata Kerensky.

As Teses de Abril tinham como base três princípios fundamentais: ”Paz, Terra e Pão”.
Paz – saída da Rússia da Guerra. Terra – realizar a reforma agrária. Pão – acabar com a fome, comida para todos

Revolução em um só país e depois exportação

Como se sabe da história do século XX, e ao contrário dos ensinamentos de Marx (“tese” do século XIX) – a revolução proletária iria acontecer nos países onde o regime capitalista era mais desenvolvido (Alemanha, França, Reino Unido) e que Lenin reviu (revisionista!) e transformou em revolução socialista num só país, na Rússia – ”o ponto mais frágil da cadeia do imperialismo-capitalista”.

Foi assim com a Revolução de Outubro, seguida da consolidação estalinista da URSS, da grande vitória na Segunda Guerra Mundial e da “exportação da revolução” com a ocupação militar de vários países europeus pelo Exército Vermelho”. Com a “revolução” consolidada em casa, passou-se a fase de exportar, de a internacionalizar, com Stálin, Kruschev, Brejnev.

História ou narrativas de ontem, hoje e amanhã

E que tem esta narrativa a ver como o nosso carismático líder ”anti-comunista”  Viktor Orbán ? – Que, faça-se justiça, considerando toda a Europa, criou o mais perfeito e eficiente partido bolchevique (leninista) do século XXI.

Por filosofar sobre o Imperialismo? Sobre o Liberalismo (em especial o Iliberalismo)? Sobre as esquerdas traidoras e vende-pátrias – húngara e europeia e americana?

Por pensar que tendo a Hungria no bolso, o seu poder consolidado, que chegou finalmente a tão desejada hora de exportar o seu regime para o resto da Europa, ocupar Bruxelas com o seu liiberalismo totalitariano como o fizeram os revolucionários russos que em 1917 ocuparam o Palácio de Inverno com o totalitarismo bolchevique?

E o amigo Putin?

Já pensaram bem? O quanto não deve estar a esfregar as mãos de contente o seu ”camarada nacional-patriota” Vladimir Putin? Nem precisa de mexer uma palha, o seu afilhado Viktor faz o serviço por ele, enfraquecer a União Europeia, enfraquecer sempre, dia após dia…(Lenin dizia, aprender, aprender, aprender sempre).

Vão ver, ainda vai ser o seu outro grande camarada – ainda mais e maior que o russo –  o chinés Xi Jinping que vai dizer ao ”nosso camarada Orbán” para ter calma, não ir longe demais, que a China quer é a União Europeia estabilizada e liberalizada, como grande mercado único, não a quer dívida em parcelas, a Hungria por si, é quase nada, cabe numa cidade média chinesa.

Vamos lá então ao que selecionamos para esta semana, o discurso de Orbán este sábado e as suas sete (7) teses de junho

Mais de um século depois – As Teses de Junho de Orbán

Cento e quatro (104) anos, dois (2) meses e doze (12) dias depois, no seu discurso, deste sábado (19 de junho de 2021) no Vigadó em Budapeste, no dia do trigésimo (30) aniversário da saída do último soldado soviético da Hungria (19 de junho de 1991) e como particularidade extra, de não terem sido ”Teses” apresentadas depois do regresso de algum exílio dourado como o de Lénin na Suíça, mas no caso de Orbán, antes da arrancar para o Puskás Aréna, para ver a seleção da Hungria conseguir o resultado histórico e heróico de empatar a uma bola com a França,  Campeã do Mundo em título e Vice-Campeã Europeia.

“Para onde foi o sonho europeu?” – perguntou Orbán no início do seu discurso. Perguntou mas naturalmente foi ele que respondeu. Sabe-se que tem pouco tempo para ouvir a opinião dos outros.

Continuou dizendo que a construção de um império de Bruxelas conduzirá inevitavelmente a uma falta de democracia. “Somos democratas-nacionais que enfrentam os construtores de impérios, que são os verdadeiros opositores da democracia. Bruxelas é gerida por aqueles que acreditam que a integração é um fim em si mesma”.

Agora sim. As Teses de Junho de Orbán sobre o Futuro da União.

No início do seu discurso, Viktor Orbán disse que este era o dia em que “a Hungria iria falar pela primeira vez no debate sobre o futuro da União”. O nosso Primeiro-Ministro fez questão de sublinhar que os países que não são membros da União também fazem parte da Europa.

No seu discurso, Orbán enumerou sete (7) teses:

  1. Estamos no caminho para uma União Europeia imperialista, e em vez de uma Europa de nações, está a ser construído um super-estado europeu em Bruxelas, sem mandato de ninguém.
  2. Bruxelas é agora governada por aqueles que veem a integração não como um meio mas como um fim em si mesmo, e que por isso querem sobrepor-se a todos os interesses nacionais e valores tradicionais.
  3. Bruxelas transferiu uma parte considerável do seu poder para redes organizadas e controladas a partir de fora da Europa, em particular as redes Soros e os interesses dos democratas americanos que estão por detrás.
  4. Sem sucesso económico partilhado, a União Europeia desmoronar-se-á.
  5. A próxima década será uma era de desafios perigosos, de movimentos populacionais, migração, epidemias e pandemias, e é nesta era perigosa que devemos criar segurança e ter sucesso na economia global.
  6. O Parlamento Europeu provou ser um beco sem saída para a democracia europeia, representando apenas os seus próprios interesses ideológicos e institucionais, pelo que o papel dos parlamentos nacionais deve ser significativamente aumentado.
  7. A Sérvia deve ser admitida na União Europeia, porque a adesão da Sérvia é de mais interesse para a União Europeia do que para os sérvios.

Viktor Orbán… ou a visão (quimera) de uma “Europa Orbanista”

Orbán disse que a Europa tinha passado por bons e maus momentos, mas que a Europa era eterna. A UE é uma entidade política criada para proteger os interesses económicos e militares dos seus países. A UE foi criada para manter viva a esperança de que um dia os europeus irão decidir o destino da Europa.

O nosso PM, coisa que não é muito frequente nele, fez mesmo uma incursão à economia na ótica da UE – mas é verdade, estamos a falar de Teses para ficarem nos livros de história como as teses de Vladimir Ilitch – afirmando que  a UE em 2008, representou 25% do PIB mundial, e em 2019 essa participação desceu para 18%.

Acrescentando que das 50 maiores empresas do mundo, em 2001, 14 eram europeias, hoje são apenas 7. Nos últimos 25 anos, foram criadas 20 empresas com valor de 100 mil milhões de dólares, mas nem uma única europeia se encontra entre elas.

Quanto aos exércitos, armas e armamento, o seu novo brinquedo, Orbán fez questão de afirmar que apenas 2 dos 10 maiores orçamentos militares do mundo são europeus. Que bom para nós todos que a Hungria, com menos de 10 milhões de habitantes, não é a Itália, nem a época histórica não seja a de Mussolini com o seu amigo de Berlim.

Recapitulando o estudo empenhado das Teses de Orbán

“A construção de um império em Bruxelas conduz necessariamente a uma falta de democracia”, disse. ”Nós, democratas nacionais, somos confrontados com os construtores do império, que são os opositores da democracia”.

Bruxelas é gerida por aqueles que acreditam que a integração é um fim em si mesma. Os sistemas jurídicos da UE não impedem esta ambição, eles facilitam-na. Os nossos opositores políticos estão, portanto, a atacar as famílias, a nação, o cristianismo e o judaísmo”. É por isso que o governo húngaro acredita que a frase “união cada vez mais estreita” deve ser eliminada do tratado fundador da UE na primeira oportunidade”.

Para acabar com o Puskás Aréna a aplaudir de pé… empatar com os franceses não é para todos!

“Há 30 anos atrás pensávamos que a Europa era o nosso futuro, agora somos nós o futuro da Europa”. disse o nosso líder. “Há 30 anos vencemos a Guerra Fria. O povo da Europa Central alinhou com os polacos e ganhou a última fase da Guerra Fria, nós ganhámos a liberdade. Os soviéticos não saíram, fomos nós que corremos com eles”.

“A história oferece-nos agora a oportunidade. Este debate já começou, podemos finalmente falar abertamente sobre os problemas, sobre tudo o que é prejudicial e prejudica os cidadãos dos Estados-Membros. O pódio também existe para nós, só precisamos da coragem intelectual e podemos usá-lo para os nossos próprios fins.”

“Foi-nos dada a oportunidade de impedir que a União Europeia se degenerasse e Bruxelas ficasse mais escura. Conhecemos a ameaça, porque só vivemos em liberdade há trinta anos. Fomos sempre os combatentes da liberdade na Europa. Lutamos pela liberdade e os nossos amigos ocidentais herdaram-na. Que diferença!”

“Tenhamos a coragem intelectual e política de admitir que os tempos mudaram. Há trinta anos atrás, pensávamos que a Europa era o nosso futuro. Hoje vemos que somos nós o futuro da Europa. Ousemos (ousar lutar, ousar vencer disse o camarada Mao) ser democratas e combatentes da liberdade em Bruxelas, porque só a partir daí pode nascer um novo Renascimento Europeu.”

A Jóisten mindannyiunk felett, Magyarország mindenek előtt! Hajrá, Magyarország, hajrá, magyarok!

“Deus acima de todos nós, a Hungria acima de todos! Força Hungria, Força húngaros!”

Orbán! Orbán! Orbán! Orbán! …. Vamos ver se não haverá as Anti-Teses em Abril de 2022…

 

András Gellei, Budapeste, 20 de junho de 2021

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