A Semana (A Hét) – Tanta vacina, tanta morte, tanto golo falhado

por András Gellei

Está em fase de pouca sorte, pouco faro de goleador, o nosso Primeiro Ministro futebolista!

A máquina da propaganda (aparentemente) tão bem oleada, a jogada tão bem treinada para o golão anunciado do nosso Viktor – um golo à Messi, golo de levantar o estádio de Felcsút ou a Arena Puskás – e o raio da bola bate na barra, bate no poste e vai para fora…

E o pior, são os momentos cada vez mais frequentes dos contra-ataques rápidos da equipa adversária que dão em golo ou auto-golos do seu infeliz ajudante, sem lugar fixo no relvado e por isso tão trapalhão: o sargento-ministro Gulyás! O tal que tudo o que faz e que diz, tudo em que toca, transforma em “kutyagumi”.

Nova equação húngara: muita vacina + muitos mortos = Deus não quer nada com o nosso!

É preciso ter pouca sorte. Tinha mesmo que ser no dia que atingia os 2,5 milhões de vacinados (de vacinas dadas) – na terça-feira, 6 de abril, é que tinha de se atingir o número recorde de 311 mortes por dia. Foi ainda pior do que em 30 de março, a Hungria, camisola amarela do ”Tour UE da Vacinação” chegou aos 2 milhões de vacinas dadas e o número de óbitos foi 274.

Vacinas. Na Europa já seguem Orbán. Querem a Sputnik V russa

Que numa frase seja dito e destacado: a percentagem de vacinação na Hungria está muito acima, quase o dobro da média da UE! Que não haja dúvidas, a compra das “vacinas do oriente”, da China e da Rússia, foram uma grande jogada de antecipação por parte do governo. São vários os países da União Europeia, Alemanha, Áustria, etc, que estão a seguir os passos de Orbán e estão a bater às portas do Kremlin.

Discursos mal preparados. Nem Orbán parece o mesmo (nem a equipa que escolheu a dedo).

Algo vai mal no balneário, na casa grande do castelo de Buda, no Palácio das Carmelitas. Até parece que cada um diz o que lhe vem à cabeça, sem a habitual distribuição de tarefas, de cábulas e de discurso, seja o Ministro dos Recursos Humanos (Saúde) Kászler, o Ministro dos Estrangeiros Szijjártó, os posts da Judit da Justiça e da Kata da Família, ou a “cereja no bolo”, as declarações contraditórias do nosso PM Orbán.

Dois exemplos em menos de uma semana!

No mesmo dia, quanto ao número mínimo necessário de vacinas para reabertura gradual do país do confinamento atual. Orbán disse que depois de 2,5 milhões de pessoas terem sido vacinadas, podíamos começar a reabrir o país. Imagine-se! O Prof. Dr. Kásler, contradisse o seu chefe bem amado, dizendo com palavras mansas e luvas brancas, que os 2,5 milhões são na realidade 4 milhões! Assim!

No mesmo dia, no canal público M1, dois dos mais conhecidos e conceituados médicos especialistas, Béla Merkely falou em 5 milhões e János Szlávik em 6-7 milhões!

Afinal em que ficamos? Parece as licitações, que estamos num leilão de obras de arte! Mas aqui trata-se de vidas (muitas vidas) humanas!

Mas o melhor estava para vir. Na quinta-feira, na conferência de imprensa semanal do governo, o sargento-ministro Gulyás anunciou que o governo húngaro iria decidir sobre a segunda fase do plano de reabertura gradual após três milhões de pessoas terem recebido a primeira dose da vacina, o que deveria acontecer nos dias seguintes, tendo ainda sublinhado que por estarem criadas todas condições de segurança de saúde, no “dia 19 de abril reabrem todas as escolas”. (Creches e jardins escolas também).

Menos de 24 horas depois, falou o General-chefe Orbán na Kossuth Rádio, na entrevista semanal madrugadora de sexta-feira, na qual, frio e impiedoso não hesitou em mostrar o cartão amarelo ao seu sargento e informar que muitos pais podiam continuar a dormir descansados. O ensino secundário, os liceus reabrem apenas no dia 10 de maio.

Já ninguém se entende lá em cima, na casa grande. Se a coordenação da comunicação anti-covid para ganhar eleições fosse futebol a sério, corriam riscos de descer de divisão…

De sublinhar que nas poucas horas que mediaram entre a conferência de imprensa do sargento e a entrevista do General-chefe, diversos conceituados especialistas, a Câmara Húngara dos Médicos “nenhuma razão médica ou epidemiológica justifica a flexibilização das medidas preventivas atualmente em vigor”, o Sindicato Democrático dos Professores, organizações de estudantes, pais e alunos, lançaram de imediato uma barulhenta campanha nas redes sociais, contra a reabertura das escolas, que como se viu, chegou aos ouvidos de Orbán…

Futebol, futebol. Nós queremos futebol

Muitos dos analistas críticos do governo Orbán consideram que a correria pelas vacinas e as pressas pela reabertura do país, mais do que eleições da primavera de 2022, neste momento, a curto prazo, têm um nome: Futebol. Euro2020

Já tínhamos o artigo quase feito quando chegou a confirmação. A UEFA informou na sexta-feira à noite que 8 dos estádios que vão receber jogos do Euro2020 vão ter público nas bancadas. Budapeste é, para já, a única cidade que pretende ocupar 100% da capacidade da lotação da Puskas Arena com 67 mil espectadores. Nota: Para alegria dos adeptos húngaros.

Ao contrário das outras 11 cidades anfitreãs, nenhuma outra se comprometeu com uma ocupação a 100%, apenas a MLSZ, Federação de Futebol Húngara e Orbán. Nem o camarada Putin foi tao longe!

Assim, Baku e S. Petersburgo comprometeram-se a 50% da lotação e Amesterdão, Bucareste, Copenhaga, Glasgow e Londres 25-33%. Alguns organizadores indicaram que os números apresentados poderiam ser aumentados mais tarde se a situação epidémica evoluir positivamente.

Munique, Roma, Bilbao e Dublin ainda não tomaram a decisão.  Podem dar a resposta até a19 de Abril.

Futebol e velha receita ou como desviar as atenções do drama da pandemia na Hungria.

O aproveitamento até ao mais alto nível do despedimento do treinador de guarda-redes Zsolt Petry do Hertha de Berlim.

Recapitulando. A equipa de futebol alemã Hertha despediu Zsolt Petry com efeito imediato, devido às declarações do técnico de guarda-redes sobre imigração e casamentos do mesmo sexo, numa polémica entrevista ao diário pró-governamental Magyar Nemzet.

O antigo guarda-redes de 54 anos, afirmou que  “a maioria da sociedade húngara não concorda com a opinião liberal de Péter Gulacsi”, guarda-redes titular da seleção e do Leipzig. ”Não sei o que pode ter levado o Péter a defender homossexuais e transsexuais”, disse Petry, criticando também a política de imigração na Europa, que qualificou como “uma manifestação de declínio moral”.

Em resposta, o Hertha afirmou estar comprometido com os “valores da diversidade e da tolerância”, que não estão espelhados “nas declarações que Zsolt Petry fez, na qualidade de funcionário do clube”, entrevista para a qual não pediu autorização, violando os termos do contrato assinado entre as partes.

Posteriormente, em declarações divulgadas no site do clube, no qual trabalhava desde 2015, Petry garantiu não ser “homofóbico, nem xenófobo”, lamentando a crítica à política de imigração e pedindo desculpa a todos os que se sentiram ofendidos.

Um despedimento caído do céu para o nosso governo do futebol!

Uma oportunidade de baliza aberta que não se podia desperdiçar! Nada melhor como tentar driblar a situação trágica da pandemia. Empolar o caso e assim desviar a nossa atenção da situação dramática na Hungria e dos erros consecutivos de Orbán!, Obrigado Hertha! Obrigado Zsoltika! Vamos a isso!

E foram! O Secretário de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros chamou ao ministério, com caráter de urgência, o Encarregado de Negócios da Embaixada da Alemanha em Budapeste. O tema da importante reunião foi o despedimento de Petry pelo clube alemão! Com comunicado oficial e tudo!

O Ministro Szijjártó também não se calou e até o nosso sargento Gulyás na quinta-feira afirmou que convém não esquecer a história recente, que “houve totalitarismo no século XX, que começou na Alemanha, não queremos que aconteça o mesmo no século XXI”.

Orbán. No poder há 11 anos e a realidade paralela

O Fidesz, Orbán e os seus rapazes estão no poder há mais de 11 anos e parece que vivem cada vez mais numa realidade paralela e pensam que os outros, a maioria é também ali que está…

É o Hertha, é a Franziska Tschinderle, a nova mal amada ”jornalista-provocadora” austríaca, é Bruxelas que segundo János Lázár, ex-delfim (que se está a fazer ao lugar do ministro-sargento) ”enquanto as vacinas orientais salvaram 600 mil, Bruxelas é responsável de 20 mil húngaros mortos”, é a oposição anti-pátria e anti-vacinas culpada das mortes…

Tudo serve para tentar distrair as pessoas, para não olhar para os números cada vez mais dramáticos dos novos infectados, hospitalizados e mortos…

São os números! São números terríveis!

Durante meses o nosso PM repetiu que na pandemia, o número de mortes era o indicador dos indicadores, que a sua estratégia era manter esse número baixo, muito mais baixo que os outros países europeus. De caminho ia dizendo que o “laborország”, o país-laboratório, o exemplo-cobaia a seguir era a Áustria. Conversa que curiosamente desapareceu do seu discurso…

Há 6 meses era fácil de falar, em setembro, eram 5, o número médio de mortes diárias. Seis meses depois, em março, o número de húngaros que morreram em média por dia foi superior a 190!

Comparando com o “laborország”, nos últimos 7 dias, a Áustria (com 8,9 milhões de habitantes) teve uma média diária de 32 mortes. A nossa média (9,8 milhões habitantes) foi de 244. No total acumulado de óbitos, a Áustria soma 9.624. A Hungria 23.211! Dados de sábado.

Continuando a comparar, no caso com um país da lusofonia. A situação da pandemia no Brasil é, no mundo, uma das mais graves. O número total de mortes ultrapassou este sábado os 350 mil (351.469). O Brasil tem 212 milhões de habitantes. Se a situação de mortalidade na Hungria fosse replicada para o Brasil, não seriam 350 mil, seriam 505 mil mortos.

Que Deus ajude o Brasil e a Hungria!

András Gellei, Budapeste, 11 de abril de 2021

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