A Semana (A Hét) – Paga Um e Leva Dois: Orbán da Hungria e Jansa da Eslovénia

por András Gellei

A Eslovénia assumiu a presidência do Conselho da UE a 1 de julho. Na atual Europa, de Janez Jansa, o pouco conhecido Primeiro-Ministro da Eslovénia, sabe-se que é um dos mais firmes apoiantes e fiel seguidor do nosso Viktor Orbán.

Os que os conhecem de perto, dizem que Janez Jansa não dá um passo, sem antes consultar o seu guia ideológico, o seu irmão mais velho – apesar de ter mais 6 anos -, “Viktor Barátom”! O meu amigo (dele) Viktor!

Convém ter consciência que nós europeus, temos agora, na figura do PM esloveno, um clone de Orbán – bastante menos inteligente e estratega  – e que durante este semestre vai dirigir o Conselho Europeu da UE em substituição de Portugal que o liderou desde 1 de janeiro até 30 de junho.

Janez Janša, discípulo de Orbán na Presidência da UE

O primeiro-ministro esloveno assume a presidência semestral da UE e sonha em abalar os alicerces do projeto europeu, na medida em que avançam, uma após outra, as posições dos países considerados “iliberais” dentro da UE, cuja face mais visível é o nosso primeiro-ministro Viktor Orbán.

Uma Eslovénia “orbanizada” em second hand na Presidência da UE

A Eslovénia assume a Presidência da UE, 30 anos após a sua breve guerra de independência de Belgrado, e curiosamente como deste lado da fronteira, tendo evoluído de um europeísmo entusiasta quando aderiu em 2004 para um eurocepticismo agressivo, que o alinha – ainda mais do que a Polónia – com a Hungria de Orbán.

Quem é o irmão mais novo de Orbán?

Jansa foi quando jovem, primeiro líder da Liga da Juventude Comunista da Jugoslávia, sendo depois sido um destacado dissidente, no final dos anos 80, quando a Jugoslávia, da qual a Eslovénia fazia parte, começou a desmoronar-se.

O partido de Jansa ganhou as últimas eleições em 2018 com um discurso radical anti-imigração e crítico da UE, mas não conseguiu formar um governo devido à oposição de vários partidos com assento parlamentar que conseguiram formar uma coligação.

Jansa apenas 2 anos mais tarde, tomou posse como primeiro-ministro à frente de uma coligação de 4 partidos conservadores, após o governo anterior se ter demitido por falta de apoio parlamentar suficiente.

Jansa também não tem maioria no Parlamento, e já sobreviveu a duas moções de censura por parte da oposição, que o acusa de estar a desmantelar os principais pilares da democracia.

Jansa é agora conhecido como “Marshal Twitto”, uma referência ao Marechal Tito e pelo uso diário da rede social Twitter para divulgar as suas ideias, e como “Mini-Trump”, pela sua admiração pelo antigo presidente dos EUA. Admiração quase tão grande como a que sente pelo nosso “Vezér”.

De acordo com uma sondagem recente, 21% dos eslovenos votariam nos partidos da atual coligação governamental, contra 31% que votariam na oposição de centro-esquerda. Os restantes manifestaram-se indecisos ou votariam noutras forças políticas. Mais de metade dos inquiridos avaliam negativamente o governo e o partido de Jansa, com uma intenção de voto de 17%, menos 8% do que em 2018.

Slovenia’s Jansa follows Hungary down authoritarian path (FT-Financial Times, 23.05.2021)

Segundo o “comunista-sorista FT” – na linguagem de Jansa e do seu padrinho Orbán – não há a mínima dúvida da ligação estreita entre a Eslovénia de Jansa & Hungria de Orbán.

Segundo o FT, a evolução política de Jansa é um espelho da do seu aliado próximo, o primeiro-ministro húngaro Orbán. Ambos eram liberais anticomunistas que se tornaram eurocéticos da direita mais dura.

Jansa tem vindo a seguir todos os ensinamentos e práticas de Orbán, fechando vozes críticas dos meios de comunicação e assegurando que os seus aliados assumissem o controle de outros meios. O governo da Eslovénia tem levado à prática todas as “estratégias da Hungria, todos os seus padrões de censura, e controlo sobre os meios de comunicação públicos”.

Janez Janša e Viktor Orbán são almas gémeas.

É preciso ser cego para não ver que a Eslovénia, sob a liderança de Janša, tem uma semelhança incrível com a Hungria de Orbán, que orientações e conselhos detalhados estão a ser enviados diretamente de Budapeste para Liubliana, ensinamentos do livro de cabeceira do autocrata húngaro.

A estratégia relacionada com o controlo do panorama mediático esloveno é uma cópia do processo na Hungria, com capital húngaro-orbanista. Inclui o desmantelamento do sistema dos media públicos independentes. Esta estratégia inclui também o sistema de comunicação social privado, com penetração crescente do capital húngaro ligado aos amigos de “Orbán Kft. (Orbán Lda)”.

Barátom, Janša! Meu Amigo Janša!

Ou paga um e leva dois. De uma assentada poder imaginar-se que num futuro próximo, nem um nem outro destes “nossos primos iliberais” estarão no poder político. Sejamos francos, será muito mais fácil derrotar Janša do que derrotar Orbán.

 

András Gellei, Budapeste, 4 de julho de 2021

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