A Semana (A Hét) – Orbángate e o Referendo Aldrabão

por András Gellei

Do Watergate americano de ontem ao magyar Orbángate de hoje. Ao referendo para defender as nossas crianças.

É mentira! O governo de Orbán não protege as crianças húngaras. Utiliza-as como escudo dos seus interesses político-partidários mais mesquinhos e obscuros.

Algumas notas soltas (muitas delas recolhidas na imprensa húngara) escritas em passo de corrida, antes que me chamem de vil defensor dos “buzik (maricas)”

Por falar nisso, foi impossível conter as sonoras gargalhadas dos jornalistas, quando nesta quinta-feira, no briefing semanal do governo, o ministro papagaio Gergely Gulyás, a uma pergunta relacionada com a marcha Budapeste Pride deste sábado, deu a entender que no Fidesz, não há homossexuais! Só quando escorregam até a rua pelos canos da água e são apanhados nus…

O tempo corre a favor ou contra Orbán?

A semana passada foi uma das mais crispadas semanas políticas do regime orbanista. Três dias após ter sido implicado no escândalo internacional de espionagem Pegasus, e 24 horas após ter sido novamente acusado pela Comissão Europeia pelos seus abusos ao Estado de direito, Viktor Orban na quarta-feira, anunciou a convocação de um referendo sobre a lei de “proteção das crianças”, que tinha sido aprovada em junho no Parlamento.

Que forma de desviar as atenções do escândalo das escutas ilegais! A perfeição do cinismo político! Melhor é impossível! Orbán no seu melhor!

  1. Espionagem cibernética – Se o Pegasus está no seu telefone, o telefone já não é seu

Em duas frases. A NSO é uma empresa tecnológica israelita cujo spyware chamado Pegasus permite a vigilância remota de smartphones. O programa utiliza as próprias falhas do sistema, as quais são desconhecidas mesmo pelos criadores e fabricantes. Através destas falhas, o “espião” entra no telefone e consegue ouvir as conversas do utilizador, ler os seus e-mails ou ver as suas imagens.

A Pegasus é uma arma cibernética tão séria que a própria empresa precisa da aprovação do ministério da defesa de Israel para a vender a outros países. Oficialmente, só pode ser utilizada contra pessoas suspeitas ou acusadas de terrorismo ou de crime organizado. No entanto, os jornalistas de investigação da Forbidden Stories e da Amnistia Internacional adquiriram uma lista contendo mais de 50.000 números de telefone de utilizadores de 50 países.

A investigação internacional que se seguiu, realizada por 17 prestigiados jornais internacionais (Washington Post, The Guardian, Le Monde, etc.) chegou a resultados muito inquietantes e preocupantes.

Que países espiam, vasculham os seus cidadãos pelas suas opiniões políticas?

Que regimes têm tanto medo de perder o poder que utilizam armas cibernéticas para piratear os telefones dos outros? Azerbaijão, Bahrain, Emirados Árabes Unidos, Índia, Cazaquistão, Marrocos, México, Ruanda, Arábia Saudita, Togo, Emirados Árabes Unidos e Hungria! Único entre os países da União Europeia! Fala por si!

A Pegasus foi utilizada para piratear os telefones inteligentes de mais de 300 alvos húngaros, entre os quais jornalistas, oposicionistas e vozes críticas do governo. Que tipo de homem é Orbán que para se eternizar no poder, destrói tudo pelo que antes lutou de forma valente, digna e corajosa? Mais um percurso, uma viagem sem honra, de um resistente a autocrata. Chegará a ditador?

Nos últimos 11 anos, o governo de Orbán adotou e adaptou todas as “regras do jogo” aos seus interesses com o objetivo de se perpetuar no poder. A lei eleitoral é o que eles querem que seja; o desenho dos diversos círculos uninominais; o parlamento funciona como Viktor Orbán pensa que deve ser, uma máquina oleada e eficiente de votar; e mais recentemente, em muitos casos, o roubo de bens do Estado é flagrante e legal, porque está de acordo com as leis aprovadas pela grande maioria Fidesz no parlamento.

A lição do escândalo Pegasus não é apenas o que se suspeitava. Agora sabemos que o governo húngaro pode realizar escutas telefónicas a jornalistas, proprietários de meios de comunicação social, políticos da oposição, a quem ele quiser. Vejam lá o que dizem quando falam do vosso telefone inteligente! O Grande Irmão Viktor não dorme! Não se esqueçam!

“Não vejo um escândalo, o que vejo é histeria”

Judit Varga, ministra da justiça, a ministra favorita de Orbán; a segunda favorita, Katalin Novák, ministra da família; Sándor Pintér do interior, Péter Szijjártó dos estrangeiros e Gergély Gulyás, ministro chefe da chancelaria de Orbán, não se cansam de repetir “não se trata de um escândalo, mas de acusações infundadas”. “Não vejo um escândalo, o que vejo é histeria”. É tudo uma montagem, Soros está por detrás disto, é um velho astuto e poderoso, não lhe escapa nada, é capaz de tudo.

Curiosamente, durante mais de 24 horas depois da notícia ter sido publicada, quer no estrangeiro, quer na Hungria, a MTI – Agência Nacional de Notícias, a televisão e rádio do estado ou qualquer dos muitos jornais ou portais controlados pelo governo, em nenhum dos casos, “a notícia foi notícia.” Nem uma palavra. Só mais tarde começaram a reagir.

Desde então o Fidesz está a “defender-se” como um animal raivoso encurralado, contra-atacando de forma cada vez mais agressiva, disparando em todas as direções. Como é o caso do famoso publicista-propagandista Zsolt Bayer.

”Soros e a CIA estão por detrás do caso Pegasus. Por isso, penso que é provável que a Marcha pela Paz (Békemenet) de 23 de Outubro se reúna em frente da embaixada dos Estados Unidos. Vamos gritar bem alto para que eles possam ouvir e saber que sabemos quem são os verdadeiros vilões, quem são os nossos inimigos. Zsolt Bayer (Magyar Nemzet, 20 de julho de 2021). Velho comuna do Biden! Vá lá, desta vez deixou o Papa de fora!

De sublinhar que na quinta-feira, dias depois de muita insistência da oposição, o Ministério Público abriu uma investigação sobre o ”caso Pegasus”.

  1. “Bruxelas atacou a Hungria” – Orbán

“Bruxelas atacou a Hungria, e é por isso que precisamos de um referendo sobre a proteção das crianças”, disse a abrir Orbán na sua habitual “entrevista” na Kossuth Rádio esta sexta-feira.

Orbán disse que “no documento de 54 páginas enviado pela Comissão Europeia, eles exigem que alteremos a Lei de Protecção da Criança. Contudo, as leis sobre direito da família e direitos da criança são todas da competência nacional, estamos sob enorme pressão de Bruxelas. Eles estão a chantagear-nos, a ameaçar-nos, a iniciar processos por infração e a atrasar os pagamentos, mas não podemos ceder quando o futuro dos nossos filhos está em jogo”.

Referendo sobre a permanência da Hungria de Orbán na UE?

“A UE deve é realizar um referendo sobre se deve continuar a tolerar a presença de Orbán”, disse ao Der Spiegel, o ministro dos negócios estrangeiros luxemburguês Jean Asselborn em resposta ao anúncio de Orbán do referendo de “protecção infantil”

Segundo Asselborn, “deveria haver um referendo na União Europeia sobre se o Orbán deve continuar a ser tolerado na UE”. O ministro disse que estava absolutamente convencido que a resposta europeia seria “um não definitivo”. Isto iria resolver de uma só vez a série de processos intermináveis contra o governo de Orbán.

Diga-se que atualmente não se pode convocar um referendo a nível da UE, mas Asselborn acrescentou que este tema deveria ser considerado e discutido. Já em disputas anteriores, o ministro dos estrangeiros Péter Szijjártó chamou idiota ao seu homólogo luxemburguês. Desta vez, estranhamente, ainda não respondeu.

 As 5 perguntas do referendo

– Apoia o ensino sobre a orientação sexual em instituições públicas de educação sem o consentimento dos pais?

– Apoia a promoção da terapia de mudança de sexo para crianças menores de idade?

– Apoia a disponibilidade de terapia de mudança de sexo para crianças menores de idade?

– Apoia a exposição sem restrições de menores nos meios de comunicação de conteúdos de carater sexual sensíveis em termos do desenvolvimento?

– Apoia a exibição mediática a menores de conteúdos de mudança de sexo?

Referendo, não é por acaso, que muito provavelmente vai cair em janeiro ou fevereiro de 2022. As eleições gerais são em abril, e ainda faltam realizar as eleições primárias dos partidos da oposição unida para eleição dos candidatos únicos contra os candidatos do Fidesz… Voltarei ao assunto num próximo artigo.

O absurdo húngaro ou melhor o absurdo orbanista

Com um breve excerto de um comentário do conhecido jurista György Magyar – “Uma criança de 14 anos pode ter relações sexuais, mas é-lhe proibido falar de sexo”.

“Na Hungria, uma criança de 12 anos que tenha cometido um delito grave pode ser condenada; qualquer pessoa com mais de 14 anos, de livre vontade, pode ter relações sexuais; e qualquer pessoa a partir dos 16 anos pode até casar, mas não podem ser discutidas questões sexuais nas escolas até aos 18 anos de idade”.

György Magyar termina afirmando que a iniciativa de Orbán do referendo é “desonesta, desnecessária e o cúmulo da estupidez”.

  1. Revivendo Orwell – Orbán o Magyar Big Brother

Qual Paris, qual Macron, qual merde! o nosso Viktor merece muito mais que uma missa (“megér egy misét”). Merece pelo menos 5 por dia, o ”Palinka-gate” não é para todos!

Na Hungria sempre se contou anedotas políticas. No tempo do vitorioso socialismo, perguntava-se: O que é o comunismo (socialismo real)? É o caminho mais longo para se chegar ao capitalismo! Na Hungria de hoje é: O que é o orbanismo? É o atalho mais curto para se voltar ao comunismo!

No pedestal da glória da nossa história, o autocrata populista-leninista, lá estará, por mérito próprio, membro do triunvirato de ouro falsificado: Horthy, Kádár e Orbán!

 

András Gellei, Budapeste, 25 de julho de 2021

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