A Semana (A hét) – Hungria: Com golos se ganha e com votos se perde?

por András Gellei

Breve introdução ao tema: Na Hungria o futebol está na moda. O gigantesco investimento público realizado no futebol da última década, uma das bandeiras do orbanismo, começa a ter retorno, a dar lucro – “lucro político” a Viktor Orbán e ao seu regime. Pão e circo. Resulta sempre. Desde a história antiga. E se o pão não chegar, duplica ou triplica a dose de circo, no caso, do futebol.

Com futebol ganham-se eleições?

Se as eleições se ganhassem com os resultados do futebol, com as boas exibições da seleção nacional da Hungria – aliás, a jogar muito melhor do que era expectável, contra seleções indiscutivelmente muito mais fortes, então poder-se-ia dizer que o nosso líder e capitão da equipa, Orbán, com o seu famoso cachecol tricolor (vermelho, branco e verde), preparou bem a estratégia e teria (terá?) no bolso da camisa, a vitória nas eleições da próxima primavera.

Na verdade, na atual Hungria tudo pode acontecer e o contrário também. Num país europeu onde o “futebol da política nacional” se pratica em relvados muito inclinados e com uma caraterística comum, a inclinação é sempre em benefício do Fidesz de Orbán – as balizas dos adversários estão sempre mais em baixo, têm o dobro da largura e o triplo da altura. Com os “árbitros” nem vale a pena perder tempo porque estão todos descaradamente comprados, o “sonho da vida deles” é poderem apertar a mão ou receber um olhar aprovador do Vezér (Chefe).

Amadorismo da oposição e o profissionalismo de Orbán

Quando chegamos ao futebol “em si” (e não só, diga-se) é que se pode ver bem a diferença entre o amadorismo da oposição – que apesar de tudo, continua a parecer estar unida – e o profissionalismo de Orbán, dos seus pupilos e colegas de equipa.

A oposição durante muito tempo foi dizendo (justamente) que para estádios de futebol o dinheiro é inesgotável, a torneira nunca fecha, mas para a saúde, para os hospitais não há dinheiro para nada, nem torneiras.

Uma das ideias-frases que se ouviu até à exaustão por parte da oposição foi “temos estádios novos vazios por tudo o que é sítio, construídos com o nosso dinheiro, mas não temos futebol. Futebol é zero! É um desperdício irreparável”. Sobre a oposição, daqui da cosmopolita e resistente Budapeste há muitas vezes esse sentimento de não verem mais além, da árvore, não vêm a floresta.

A política e o futebol. Se a seleção nacional ganha, é a vitória de Orbán. Um país singular

Depois do primeiro jogo do Euro 2020 com Portugal (0-3), na qual a Hungria se aguentou até aos 84 minutos, os 2 últimos jogos da seleção húngara, dois empates – em Budapeste, frente a França (atual campeã mundial) a 1 golo, e em Munique, contra a Alemanha (anterior campeã mundial) a 2 golos – com exibições muito positivas, na Hungria. Provavelmente ninguém estaria tão feliz como o nosso PM.

Consegue-se imaginar Orbán, eufórico e emocionado, que entre – Hajrá Magyarország! Hajrá Magyarok!  – a pensar ser um génio, infalível, daqueles mais próximo de Deus do que dos humanos e podia ter dito: “eu fiz a minha parte, criei as condições para que o futebol húngaro venha a ser de novo um dos melhores do mundo. Chegou a hora de vocês fazerem a vossa parte e ganharem. Não se esqueçam de me oferecerem as vitórias, pelo menos 60% do mérito é todo meu”.

A imprensa do regime nem precisou de imaginar. Ou estava lá e “ouviu” Orbán, ou adivinhou o seu pensamento – excertos de Tamás Pihal, uma das figuras de proa do jornalismo orbanista:

Por causa do futebol, durante muitos anos, a oposição húngara criticou Viktor Orbán. Consideraram-no pessoalmente responsável por tudo o que acontecia no futebol húngaro. Criticaram, mentiram, intimidaram. Agora, quando toda a energia, dinheiro, tempo, boa vontade e experiência investidos começam a dar frutos, quando em campo, os nossos rapazes fazem palhaços de futebolistas campeões mundiais e trazem lágrimas de alegria aos nossos olhos – a oposição rasteja por debaixo do tapete do balneário e grita: ‘Orbán não tem nada a ver com o sucesso e o grande desempenho do nosso futebol’.

Orbán era o único responsável por tudo, agora não tem nada a ver com o sucesso. É essa a lógica, doentia e decadente que eles têm. Mas não devemos ter medo de repetidamente os enfrentar: “Se Orban é responsável por tudo, então é também o responsável pelos sucessos da nação. Digam o que disserem, esses idiotas, a qualificação para o Europeu de 2016 e o brilhantismo do atual Europeu, é resultado da política desportiva do governo de Orbán.

Podemos ficar em lágrimas, mas que são lágrimas de alegria! Fomos eliminados, mas heroicamente, vitoriosos. Uma equipa como esta deve, e irá, qualificar-se para o Campeonato do Mundo! O nosso lugar é lá! Nós húngaros, todos nós, quinze milhões: podemos estar orgulhosos. Temos de novo uma grande Equipa! (Pilhál Tamás, Pesti Srácok).

Ganhámos o Europeu…ninguém nos pára. Ganhamos na política

E tem havido muita política. Muito aproveitamento político. Recorde-se por exemplo dos 3 jogos da Hungria, dos futebolistas se ajoalharem ou ficarem de pé, dos canticos e outras ”performances” por parte do público húngaro que estão a ser analisados pela UEFA ou as reações internacionais sobre a polémica lei contra a pedofilia com ”um cheirinho a homossexualidade.

Por falar em lei, escreveu a autora da dita na sua página FB de ontem, Judit Varga, a jovem Ministra da Justiça e reconhecida especialista-comentadora de futebol (Vamos mesmo aproveitar a foto que utilizou na sua página com crédito respetivo, para capa deste artigo):

A labdarúgás hazatért. Egy felejthetetlen hét, amikor a magyar foci megint szép lett, méltó régi nagy híréhez. Térdeplés helyett egyenes tartás, hit, önbecsülés, kitartás és nemzeti büszkeség. Mi, magyarok!

O futebol regressou a casa. Foi uma semana inesquecível, quando o futebol húngaro se tornou novamente belo, digno da sua antiga grande reputação. Em vez de se ajoelhar, houve uma postura recta, fé, auto-estima, perseverança e orgulho nacional. Nós, húngaros!

Salvé futebol! Salvé César! Salvé Viktor! Vezér nós vamos até ao fim do mundo!

Continuando no futebol, convém recordar que no gabinete de Orbán quem não gostar, ou quem publicamente não demonstrar, que mesmo no futebol, é um acérrimo seguidor do Vezér, está sujeito a saltar do carro em andamento e a ficar no congelador da estação de serviço mais próxima até ganhar juízo… que o diga o anterior super ministro da chancelaria, János Lázár que um dia teve a ousadia de dizer que ”enquanto os outros estão no estádio, eu estou no gabinete a trabalhar”.

As últimas sondagens favorecem o Fidesz

Se aos golos da seleção húngara juntarmos as intenções de voto, as últimas sondagens mostram uma evolução favorável ao Fidesz. Estou a falar de sondagens de empresas sérias, no caso a Medián, não das várias criadas pelo Fidesz e que ninguém leva a sério, nem Orbán.

Segundo o Medián, sondagem encomendada pelo semanário da oposição HVG, na lista nacional, o Fidesz teria 39% dos votos, contra 33% da coligação da oposição, uma vantagem de 2% mais do que em abril.

”Cada jogo dura até o ganharmos” – Viktor Orbán

Do futebol costuma-se dizer que são 11 a jogar contra 11 e no fim ganha a Alemanha. No último jogo não foi assim, a Alemanha passou o jogo a correr atrás do resultado e apenas conseguiu empatar aos 84 minutos, mas para Orbán isso não chega, é pouco.

O nosso Viktor tem uma filosofia ainda mais vencedora e claro, plena de ”fair-play e desportivismo”, resumida numa das suas frases icónicas – ”cada jogo dura até o ganharmos”. Vamos ver se será sempre assim. Orbán é sem dúvida um mestre-guru da política (mais interna que internacional), mas de se considerar tão infalível, tão divino, comete cada vez mais erros. Não ganhou, está sim a perder qualidades

A oposição interna caiu que nem patos! a chatisse é a “ditadura de Bruxelas”

Orbán estava tão preocupado com as reações da grande maioria da população acerca da sua universidade chinesa e ”outras chinesices” como a “distribuição feudal”, através de ”fundações dos fideszes” do património público, que para desviar as atenções dos húngaros, decidiu de repente, juntar o homosexualismo a lei sobre a pedofilia que estava para ser aprovada.

Orbán sabia que era um tema menor para a esmagadora maioria dos húngaros, mas não prestou a atenção devida. Que estava a decorrer o Euro 2020, que Budapeste era uma das 11 cidades anfitriãs, que muitos, muita imprensa, muitas televisões tinham os olhos postos na Hungria – antes da aprovação da dita lei, que bem fez a imagem de Budapeste e da Hungria! Imagem positiva arruinada num instante!

Mas o nosso Vezér pensou que o mais importante era a vitória interna, ganhar e fidelizar votos. Apanhou com todas as críticas da Europa sobre a nefasta lei…algumas delas imprecisas e incorretas.

O povo unido jamais será vencido! o povo de Orbán

Agora tenta justificar-se. Lançou uma campanha de artigos-anúncios pagos em alguns dos principais jornais europeus. Tenta (e está a conseguir) tirar dividendos a nível interno, da sua posição de derrotado em que se encontra a nível europeu. Aproveitar a ”iluminação arco-íris” contrapondo as cores nacionais. Apelar ao patriotismo e nacionalismo – nós sozinhos mas unidos contra tudo e contra todos, unidos venceremos!

O povo unido jamais será vencido! Que se lixe a imagem externa da Hungria, são todos uns liberais-comunistas! Eu vou ter à minha espera os braços amigos de Putin, Xi Jinping, Erdogan, da minha nova conquista, Meloni…

O primeiro-ministro húngaro está a tentar moldar a sua relação com a União Europeia e os seus aliados neste espírito. “Exportar” de Budapeste para a Europa, para Bruxelas os condimentos húngaro-iliberais-leninistas do orbanismo e mostrar que é uma luta de David contra Golias… David é Viktor e Golias é Bruxelas, Berlim, Londres, Soros, Biden, migrantes, homossexuais e tudo o que quiserem!

 

András Gellei, Budapeste, 27 de junho de 2021

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