A semana (A Hét) – Hungria: Abrir a Oriente, “Fechar” a Ocidente e a Economia

por András Gellei

Há uns anos atrás seria difícil de imaginar que um dos temas centrais de política interna seria a “Abertura ao Oriente”, mais concretamente a abrir as portas de par em par, a República Popular da China, ou como acusa a oposição, da “colonização” por parte da China com universidade, linha de caminho de ferro e outros negócios.

Hoje vou escrever e apresentar sucintamente os dados económicos do comércio externo e do investimento direto estrangeiro, que sustentam, melhor que não sustentam, o “milagre da Abertura a Oriente” iniciada em 2010 por parte do governo Orbán e em especial pelo seu atual Ministro dos Negócios Estrangeiros e Comércio Externo, Péter Szijjártó.

Apesar do “amor profundo” pelo Oriente (com a China acima de todos os outros “amores orientais”) e “ódio ilimitado” pelo Ocidente (Europa), que os membros e a propaganda do governo Orbán demonstram dia após dia, se não fosse a União Europeia, onde estaríamos nós, que seria da economia húngara e dos mercados externos da produção industrial, do made in Hungary?

Balança comercial da Hungria por região. A “odiada” União Europeia

Exportações e importações húngaras: De acordo com as contas nacionais, entre 2010 e 2020, o peso incontornável da UE nas exportações e importações húngaras não só não diminuiu, como aumentou em alguns pontos percentuais, tendo as exportações passado de 73% em 2010 para 77,3% em 2020, e as importações subido de 66,1% para 70,4%, do comércio externo total de bens.

Para a zona Euro, as exportações da Hungria foram 56,9% em 2010 e 59,2% em 2020 e as importações provenientes dos países da zona Euro passaram de 52,9% em 2010 para 54,4% em 2020. Se continuarmos a ver os números da “mal amada” Alemanha, as exportações húngaras representaram 25% do total das exportações em 2010 e 27,9% em 2020. As importações foram 23,9% em 2010 e 24,6% em 2020.

E a “Oriental” Ásia? E a “Bem-Amada” China?

As nossas exportações para a “Outra” Ásia foram 2,4% em 2010 e 2020 e para a China 1,6% e 2,4% respetivamente. No que diz respeito às importações, a Ásia representou 11,6% em 2010 e 11,1% em 2020. No caso da China foi 9,9% em 2010 e 7,7%, em 2020.

Como escrevi num artigo anterior, em 2020 a China exportou para a Hungria 7,7 mil milhões de euros e a Hungria exportou para a China 1,8 mil milhões de euros. Um défice de quase 6 mil milhões que tem vindo a aumentar. Curioso ver que do valor exportado para a China, quase 80% (60% são motores Audi) teve origem em empresas de capital alemão instaladas na Hungria.

Investimento Estrangeiro na Hungria: Oriente versus Ocidente

Como muitos sabem e por uma questão de objetividade económica, os especialistas, os estatísticos tentam normalmente saber, desvendar quem é o “investidor final”, quem está por detrás das filiais ou empresas do projeto de investimento concreto. Os dados, classificados como “investidor final”, mostram que a Europa continua, de longe, a dominar o stock de investimento na Hungria com 66%, enquanto, ao contrário da propaganda destilada diariamente, a quota da Ásia, com 17,2%, tem, no essencial, permanecido a mesma há vários anos.

Olhando para os países asiáticos, com base no investimento acumulado, os maiores investidores “Orientais” na Hungria são: Coreia do Sul (4,4%), Japão (3,5%) e Índia (3,4%). A China, o país com o qual o Governo Orbán colocou todas as fichas, é apenas o quarto (!) país no ranking asiático com 2,7%! São os números, Senhor Inteligente! São números de fins de 2018 do MNB-Banco Nacional da Hungria, não são os mais atualizados, mas deixam claro a realidade, sem fantasias.

Os dados sobre os fluxos de investimento dos últimos dois anos mostram que o peso relativo do investimento proveniente diretamente da Ásia tem vindo a aumentar, pelo que se espera que a percentagem de investimento “Oriental” tenha crescido até ao final de 2020. Isto não significa, contudo, que tenha havido um grande aumento do investimento asiático. De acordo com os dados do MNB, no ano passado a Ásia investiu na Hungria mil milhões de euros, e os montantes para 2018 e 2019 foram aproximadamente os mesmos.

A magia de Szijjártó e os números sem magia

Péter Szijjártó afirmou em dezembro que “nunca tivemos um ano de tanto sucesso em termos de captação de investimento como em 2020”.

Será que é assim? Segundo os dados do MNB, os fluxos de capital estrangeiro para a Hungria foram de 2,3 mil milhões de euros em 2020. O mesmo indicador foi de 2,8 mil milhões de euros em 2019, 5,5 mil milhões de euros em 2018, 5,1 mil milhões de euros em 2017 e 3,9 mil milhões de euros em 2016. Peçam ao Senhor Ministro que vos explique a “magia dos seus números”. Ninguém o fará melhor que ele.

Aliás num outro post na sua página oficial de Facebook, Szijjártó escreveu que em 2020, a China tinha sido a maior fonte de investimento na Hungria, mas segundo os dados do MNB, a quota da China nos fluxos de entrada efetiva de capital tinha sido apenas de 2%, e, p.ex de Hong Kong foi 9,6%.

Os investimentos “multiplicam-se”. A China outra vez

De acordo com o website do governo, durante o ano 2020, Szijjártó anunciou 5 investimentos chineses – Fábrica de Peças de Bateria Shenzen Kedali, Fábrica de Peças de Bateria Semcorp, Desenvolvimento do Complexo Químico Borsodchem, Investimento Automóvel Chervon Auto e Fábrica de Computadores Lenovo.

O valor total anunciado destes 5 investimentos foi de 117 mil milhões de forints, cerca de 300 milhões de euros, que compara com a entrada total de capital de 2,3 mil milhões de euros em 2020.

Em fevereiro deste ano, ao anunciar a expansão da fábrica da SEG Automotive em Miskolc, Szijjártó disse que 12 das 16 empresas chinesas na Hungria, antes eram propriedade de empresas alemãs, francesas ou americanas. Uma delas é a SEG Automotive, que fez parte do Grupo alemão Bosch até ser comprada por uma empresa chinesa em 2018.

Tais aquisições, sem dúvida, aumentaram o valor dos ativos de capital detidos pelos investidores chineses na Hungria, mas na verdade não trouxeram um forint para a economia húngara, pois o montante que mudou de mãos durante a aquisição foi para os bolsos dos ex-donos alemães, franceses ou americanos.

Apesar da propaganda da “poeira para os olhos” do nosso Ministro, não é difícil concluir que a aquisição chinesa de um fornecedor automóvel alemão tem pouco a ver com a abertura ao Oriente, uma vez que este tipo de realocação de stocks de investimento não é o resultado da diplomacia económica húngara, mas sim de processos económicos globais.

Que seria da Hungria sem a Europa!

Que seria de nós, aliás, que seria do próprio Governo Fidesz, sem o comércio externo, sem as exportações para os países da UE, para a Alemanha? Que seria da nossa economia sem o estruturante investimento Europeu, o investimento alemão?

Somos (são) pobres e mal agradecidos!

 

András Gellei, Budapeste, 16 de maio de 2021

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