A Semana (A Hét) – A Rússia de Putin e a Hungria de Orbán

por András Gellei

O que era inimaginável há 200 anos, há 100 anos, há 50 anos, há 25 anos, em parte tornou-se uma realidade. Viktor Orbán conseguiu! Ao fim de tantos séculos, há finalmente uma percentagem muito significativa de húngaros a gostar da Rússia e dos russos!

Diversas sondagens, nem sempre muito publicitadas, indicam uma nova realidade – parece que muitos de nós húngaros passamos a gostar do “Nagy orosz testvére” (Grande irmão russo).

Um exemplo para refletir. Segundo uma recente sondagem regional – ”The Image of Russia en Central & Eastern Europe and Western Balkans” – 44% dos húngaros dos 18-24 anos concordam com a afirmação: “A Rússia é o nosso parceiro estratégico mais importante”. Para os com mais de 65 anos, apenas 21% das pessoas concordam com a afirmação.

Isto apesar de acordo com todas sondagens, o Fidesz, é sobretudo o partido dos reformados, das pessoas que vivem na província, em pequenas áreas rurais, mais pobres e mais desfavorecidas. Os jovens e os intelectuais afastaram-se em massa de Orbán e mesmo assim…

Como foi possível?

Uma pergunta que dói só de colocar. Será que os jovens húngaros também caíram na campanha (com mais de 10 anos) anti-ocidental e de adoração a Putin, de Orbán e dos seus funcionários da agitação e propaganda? Será que a lavagem orbanista ao cérebro também aqui está a resultar? Inimaginável!

Haverá a troca do amigo polaco pelo russo? Passará a ser “magyar és orosz két jó barát” (húngaro e russo, dois bons amigos)?!

Húngaro não gosta de russo. Nem com vodka!

Sim, é essencial destacar, que nós húngaros, mais que anti-soviéticos, fomos sempre anti-russos. O ódio “magyar” endémico e intrínseco aos russos é muito anterior à criação da União Soviética de Lenin e Stálin.

A Rússia esteve sempre do lado oposto, do lado do inimigo, ela mesmo era o nosso principal inimigo. Nós somos fino-húngaros, ou seja, nem se pode apelar à irmandade eslava ou a cristianismo ortodoxo.

Nunca nada nos aproximou à Rússia de livre vontade. Apenas as guerras, as derrotas, a opressão e a dor. A liquidação sangrenta das nossas revoluções nacionais e libertárias de 1848-49 e 1956.

Russia Today na Hungria

É verdade que para a lavagem ao cérebro, nem são precisas, como em outros países, Moszkva Rádios (Rádios Moscovo) de hoje – o Russia Today, o site multilingue Sputnik, etc. Na Hungria, basta seguir, ver, ouvir a televisão e rádio públicas, as televisões e rádios “privadas”, toda a imprensa de Orbán com um domínio esmagador. Os seus propagandistas. É russificante!

Não há um outro país da União Europeia onde o amor à Rússia seja tão incutido como na Hungria de Orbán. São promessas de amor eterno ou pelo menos até 2036, ano previsível de Putin se retirar de vez.

Parece ser ilimitada a admiração de Orbán por Putin e pelos objetivos estratégicos do novo czar russo. Há muitos que dizem que como Putin é muito mais cínico, faz-lhe crer que são bons amigos, mas que na verdade não lhe tem respeito nenhum, que tem apenas um único objetivo, usar Orbán como sua quinta coluna na União Europeia e na NATO. Está a conseguir uma e outra vez, ano após ano…

Amizade Putin-Orbán: vantagens e desvantagens para os húngaros. De Moscovo vem:

1) Gás a preço para amigos. Com isso ganham os húngaros sejam ricos ou pobres – a Hungria tem o tarifário de gás mais barato da EU. Muitas vacinas Sputnik V para combate ao Covid-19.

2) Mais energia nuclear com a construção do novo bloco da Central Nuclear de Paks – Custo total previsto de 12 mil milhões de euros, com crédito russo de 10 mil milhões. O contrato de expansão da central nuclear assinado em 2014 forneceu a base perfeita para o governo de Orbán reforçar e aprofundar os laços políticos e económicos com a Rússia para muitos muitos anos.

3) Além de mais dependência, política, ideológica e económica, muita aprendizagem da autocracia a la Putin, por parte do bom aluno magyar.

4) Muitos, muitos especialistas e conselheiros. Uma parte deles transferidos da vizinha Viena e que se movem em Budapeste como se estivessem em casa, em Moscovo. Em Budapeste, os especialistas não têm Vladimir mas têm Viktor, têm a Vitória assegurada, devem pensar…

A “pávatánc” (a dança de pavão) de Orbán

Nos últimos tempos nem tudo está a correr bem para a estratégia da política externa pró-russa de Orbán. Senão vejamos:

1) O recente e mediático conflito (que continua aceso) entre Praga e o Kremlin, e da solidariedade manifestada pelo Grupo Visegrád, obrigatória por parte de Orbán com a Rep. Checa contra Putin.

2) Apesar do desanuviamento dos últimos dias, a situação explosiva do conflto de pré-guerra entre a Ucrânia e a Rússia.

3) A questão da Bielorússia com o envolvimento crescente de Varsóvia, com os nossos irmãos históricos.

4) A política externa de Biden e a presença da NATO, da qual a Hungria é “um fiel e leal membro”.

Situação que torna cada vez mais evidente aos olhos de todos – a chamada “pávatánc” (a dança de pavão) de Orbán, de três passos com Putin, dois passos com o “Ocidente” e agora ao contrário e a seguir, quatro passos com o czar de toda a Rússia e toca a dançar, a dançar…

Thank you Viktor!

É claro que há por aí muita gente, muitos líderes de países membros da NATO que em surdina devem dizer a Orbán (se não dizem, pensam) Thank you Viktor! Pelo veto à adesão da Ucrânia. Imagine-se o que seria, se com a Crimeia e Donbass, a Ucrânia já fosse membro da NATO, e ainda com dezenas de milhares de soldados russos estacionados na fronteira…

O inimigo não dorme! Mas o nosso Partido também não! Mas, até tu NATO?

Podia ser este, mas o título era “Soros kiadta a parancsot a NATO-nak: Be kell avatkozni a magyar belügyekbe”(Soros deu a ordem a NATO: Tem de intervir nos assuntos internos da Hungria) do Híradó.hu / Kossuth Rádio (20.04.2021)! Neste campo, a Russia Today tem ainda muito para aprender com os seus camaradas orbanistas!

Quem o viu e quem o vê!

Mas não foi assim que o nosso Viktor começou a sua carreira política!

Começou a mandar os russos para casa (ruszki haza) em 1989 e manteve-se um feroz opositor durante muitos anos ou como afirmou no seu discurso das comemorações de 23 de outubro de 2007:

“A política oriental (russa nota minha) não tolera a autonomia, não tolera a independência e não tolera a liberdade. Dissolve as linhas de defesa que protegem a vida independente das pessoas. Deixa-nos pedintes, empobrece-nos, tira-nos a roupa, e, se for necessário, intimida-nos, acorrentado-nos a uma vida dependente do poder. Desde que o Oriente (Rússia, nota minha) pôs os pés na Hungria, os húngaros amantes da liberdade como nós sempre quiseram a mesma coisa; libertar-se do seu domínio opressivo e expulsar os seus vice-reis internos”.

Mudam-se os tempos!

Mudam-se os tempos. Começaram quando Orbán se encontrou com Putin, no Outono de 2009, antes do seu novo mandato como Primeiro-Ministro. Participou no congresso do partido de Putin em São Petersburgo, onde, por minutos, se puderam conhecer e cumprimentar.

Em 2010, Orbán anunciou a sua política de “abertura ao Leste”, dizendo que em vez de debates ideológicos com as grandes potências do Leste, devíamos ter uma abordagem positiva e pragmática.

Desde então, para muitos, entre os eleitores do partido governante, a imagem da Rússia mudou muito. Até 2010 o Fidesz foi o mais crítico da cooperação económica húngaro-russa. Depois da chegada ao poder já vimos o que se passou até hoje…

Apesar disso, da propaganda pró-oriental do governo ou da sondagem antes referida, enquanto a maioria da sociedade húngara continua a encarar negativamente a Rússia. Nós, húngaros quando saímos a procurar trabalho e uma vida melhor ou a fazer compras ou turismo, não vamos para a Rússia, vamos para o ocidente.

Estamos em 2021

E agora o que Orbán mais quer, é acompanhar e seguir, se lhe for possível, ter o poder discricionário e ilimitado, sem controle, que tem o seu ídolo do kremlin. Mas tem ainda muito caminho pela frente até chegar ao nível do seu bom amigo!

Veja-se o caso da imprensa. Na semana passada foi publicado o ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2021 para 180 países, elaborado pelos Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

Na classificação, entre os países da região aparecem: Eslováquia (35), Eslovénia (36), R. Checa (40), Roménia (48), Polónia (64) e Hungria (92). A Rússia está na posição 150! Vai no bom caminho o nosso chefe, mas ainda lhe falta correr muito para chegar junto ao seu irmão russo!

19 de julho de 1991. A saída do último soldado russo da Hungria

Curiosamente, mesmo agora, entre os mais fiéis apoiantes de Orbán, há quem não esqueça ou confunda as épocas e por isso a “CÖF” – uma das sociedades civis espontâneas, criadas, controladas e financiadas pelo Fidesz, tenha acabado de propor que juntamente com o 15 de março e 23 de outubro, haja uma terceira data para ser celebrada como feriado nacional, 19 de junho, dia em que em 1991, o último soldado soviético cruzou a fronteira e abandonou a Hungria… Como é que o nosso Viktor vai explicar isto ao Vladimir?

Chegará o dia em que o último especialista ou conselheiro russo cruzará a fronteira pela última vez?…

András Gellei, Budapeste, 25 de abril de 2021

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