A Semana (A Hét) – A Nova Administração Biden e a Hungria de Orbán

por András Gellei

Nesta quarta-feira, 20 de janeiro, Joe Biden é empossado como 46.º Presidente dos Estados Unidos da América. A mudança de inquilino na Casa Branca, no caso, com a saída de Trump e a entrada de Biden, não deixa indiferente nenhum líder de nenhum país no mundo. É também assim para a Hungria e para o seu líder Viktor Orbán.

Amigos como sempre (como nunca fomos) ou amigos com a ”navalha aberta no bolso”?

 A opinião. As convicções de Orbán.

 ”Trump vai ganhar, não há Plano B” (V. Orbán, Bruxelas, 25 de setembro de 2020, Reuters)

Numa curta entrevista então concedida à Reuters, o primeiro-ministro húngaro disse estar convencido de que Trump iria renovar o seu mandato nas eleições presidenciais americanas e não tinha nenhum plano para qualquer outro resultado.

“A única razão pela qual estou aqui sentado depois de mais de 30 anos na política é que acredito sempre no meu plano A”, disse Orbán, acrescentando “temos uma relação excecionalmente boa com Trump”. Provavelmente o nível de abertura e bondade e de ajuda mútua será menor (se o candidato democrata Joe Biden vencer as eleições americanas), mas os meus cálculos estão certos, Trump vai ganhar”.

Uns dias antes, em Budapeste, Orbán tinha afirmado apoiar a reeleição de Trump, dizendo que o rival Democratas era um representante do “imperialismo moral” sobre o mundo, conceito que líderes iliberais como ele rejeitam.

Não foi nenhuma surpresa a posição de Orbán. Já em 2016 ele tinha apostado todas as suas fichas em Trump. Há 4 anos ganhou, mas em 2020 a sorte voltou-lhe as costas. Com Biden em vez de Trump, urge redesenhar a política externa húngara. A tarefa não se apresenta fácil.

 A opinião de Biden. As expectativas.

Foi já em plena campanha eleitoral e apenas por uma vez, que Biden se referiu ao regime de Orbán e mesmo aí, na perspetiva crítica da política externa levada a cabo por Trump: “Vejam o que está a acontecer na Bielo-Rússia, Polónia, Hungria e a ascensão de regimes totalitários pelo mundo… este presidente abraça todo os bandidos do mundo.”

É uma evidência que Biden (e os seus escolhidos para dirigirem a diplomacia americana), não tem nenhum plano específico para a situação iliberal na Hungria ou na Polónia. Mas também não é segredo que Biden quer uma União Europeia mais forte e mais resistente contra a pressão russa e chinesa e ao contrário de Trump, vai estar contra qualquer tentativa de enfraquecer, que como se sabe, tem sido o jogo preferido de Orbán. (Putin agradece e Putin não esquece os gestos dos amigos… p.ex., com gás natural).

 Os interesses dos Estados Unidos

Vamos lá pôr os pontos nos iis. Em primeiro lugar, sublinhar que do ponto de vista americano, existem dois estados-chave nesta ampla região ex-Pacto de Varsóvia: Polónia e Roménia, países que recebem forte apoio direto dos Estados Unidos e em troca têm ali instaladas importantes bases militares. (Nesta perspetiva, a Hungria conta pouco para o “totobola”, e se não fosse Orbán, quase nada).

A política externa americana é como se sabe tipicamente pragmática. Os interesses de ”a América primeiro” não foram propriamente agora inventados… A nova administração Biden vai certamente continuar os contactos com o governo de Orbán e garantir assim que na região, não sejam prejudicados os objetivos estratégicos mais importantes de Washington.

Que não haja muitas ilusões, além de eventuais declarações públicas, de palavras de incentivo, para a imprensa independente e os organizações civis mal amadas pelo regime de Orbán, só vale a pena acalentar esperanças de um apoio direto, se a recetividade de Budapeste aos pedidos de Washington forem considerados insuficientes.

No que diz respeito à oposição, a situação é diferente: no início, provavelmente ainda haverá alguma relutância, mas tudo pode mudar rapidamente se se descobrir que Orbán terá, de facto, uma alternativa realista em 2022. Não falta muito para se saber, se a Aliança Eleitoral dos 6 partidos (será um dos temas que vou abordar numa das próximas semanas) é um projeto com futuro. Se assim for, os novos ventos que vão passar a soprar de Washington, poderão vir a ser muitos úteis (e com cheques a acompanhar) para a oposição política ao orbanismo.

Orbán considera-se um infalível da política internacional, um dos mais experientes políticos do século XXI, um win-win. um jogador que vai ao casino e ganha sempre, e são muitos os húngaros que pensam assim: ”que não há ninguém como o nosso Vikor”, mas a nova equipa da política externa norte-americana, liderada pelo experimentado Antony Blinken com ascendência húngara, a mãe e a madrasta são húngaras-judias e o pai foi aqui embaixador entre 1994-1997, ou p.ex. a Subsecretária de Estado Victoria Nuland, com historial de conflitos, ainda bem frescos, com Orbán, indicam que o líder magyar, terá em Washington, adversários do seu nível.

Tinha Orban alternativas ao seu trumpismo assumido?

Se a resposta é uma palavra, então é: Não!

E apesar da derrota do seu amigo Trump, o primeiro-ministro húngaro não tardou a enviar os parabéns a Biden.

A conversa muda completamente se se acompanhar os mídia pró-governo que são largamente majoritários no país. Não é preciso consultar o QAnon, os estudos e as declarações do aqui mui-querido do orbanismo, Steve Banon, etc, sobre as teorias de conspiração, o roubo eleitoral do século, a ilegitimidade do novo governo, sobre o papel do conspirador-mor Soros, etc, basta ler e ver e ouvir: Magyar Nemzet, Magyar Hírlap, Origo, Pesti Srácok, M1 (canal televisivo público), Kossuth Rádio (canal público), Hír Tv, todos os jornais regionais, entre outros.

Apesar do verbalismo e em especial, da parte norte-americana, o ”casamento” EUA de Trump e Hungria de Orbán, foi muito mais um casamento de conveniência e sem comunhão de bens. Orbán foi recebido na Casa Branca apenas em 13 de maio de 2019, quando todos os líderes da região já tinham ali apertado a mão a Trump e custou muita conversa ao ”casamenteiro” e amigo comum Netanyahu, sem o qual, a cerimónia não se teria realizado. E é claro, nos 4 anos em que Trump foi presidente, como nunca anteriormente, a Hungria comprou grandes quantidades de armamento aos EUA…

Verdade seja dita que quer com a questão da adesão da Ucrânia à Nato, quer sobretudo em relação a Rússia e China, Orbán não cedeu nem abriu mão,  p.ex o tema das redes 5G e a Huawei, que é de suma importância para os americanos.

A grande questão?

É provável, que ao contrário de Trump, com a administração de Biden, os Estados Unidos voltem a uma política que decide os países e sua relação com os Estados Unidos baseada não apenas na lealdade, mas também em atitudes em relação à democracia. Como irá reagir Orbán? (Dando de barato que continuará PM após abril de 2022)

Viktor Orbán aumentou sua influência política no palco europeu e mundial, ao conseguir ter-se tornado um líder icónico do iliberalismo populista (para Steve Bannon, é ele e Salvini).

A Hungria não possui recursos naturais para se tornar um estado importante no mundo, mas Orbán, conseguiu afirmar e consolidar as suas ideias em política externa, e elas funcionaram surpreendentemente bem. Ao tornar-se um ideólogo do iliberalismo, Orbán foi capaz de reunir mais aliados do que qualquer política baseada em transações reais. É por isso que hoje a Hungria, devido a Orbán, tem um peso significativo nas lutas políticas da União Europeia.

Para finalizar apenas um último tema especulativo, uma hipótese e cá estaremos para ver (ou não) confirmado:  o novo David contra o Golias… o novo inimigo agregador das massas orbanisticas… após os migrantes, Bruxelas ou Soros… a pequena Hungria a enfrentar corajosamente o gigante Estados Unidos… se a nova administração Biden decidir atacar a Hungria de Orbán…

András Gellei, Budapeste, 17 de janeiro de 2021

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