A Semana (A Hét) – A Hungria e a Presidência Portuguesa da União Europeia

por András Gellei

Bom dia! Começa hoje a minha colaboração com o LusoMagyar News.

Em condições normais, mesmo nas da ”nova normalidade”, às segundas-feiras estarei por aqui, para escrever sobre um acontecimento ou acontecimentos políticos que tenham sido destaque na semana anterior ou que seja expectável que venha a acontecer na semana seguinte e que pela sua importância justifique um comentário “à priori”.

Esta é a razão porque a coluna se chama “A Semana (A Hét)”

O foco principal desta nova coluna será a política interna ”magyar”, as discussões, polémicas, rupturas que mais ocupam a opinião pública húngara.

Naturalmente numa Hungria membro da União Europeia, da NATO, etc e devido sobretudo à projeção mundial do seu Primeiro Ministro, Viktor Orbán – hoje uma referência incontornável na generalidade dos principais assuntos da temática internacional – haverá certamente lugar, para comentar a política externa da Hungria, assim como os ecos e reações às posições assumidas pelo Gabinete de Orbán, pelo Parlamento Húngaro, assim como entidades fora do ”mainstream do regime”, caso por exemplo da Câmara Municipal de Budapeste ou da oposição.

O início desta ”nova aventura” no LMN coincide com o semestre da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia (PPUE) que começou a 1 de janeiro e vai-se prolongar até 30 de junho. Curiosamente com o logotipo da leme que recorda a epopeia dos descobrimentos portugueses, o lema da Presidência Portuguesa é

“Tempo de agir: por uma recuperação justa, verde e digital”. A PPUE prosseguirá, assim, três grandes prioridades: favorecer a recuperação económica e a transição verde e digital; fortalecer a dimensão social da construção europeia; reforçar a autonomia de uma Europa aberta ao mundo. Em cinco linhas de ação: a Europa resiliente (na economia e nas instituições democráticas), a Europa verde, a Europa digital e a Europa global.

Portugal (a Europa e a Hungria também) teve sorte. A Alemanha de Angela Merkel foi o país que antecedeu o Portugal de António Costa e apesar das dificuldades, juntamente com a Comissão, conseguiu fechar, ou pelo menos, assinar dossiers tão importantes e nucleares, como foi o caso do orçamento da UE para 2021-2027, o Fundo de Recuperação pós-pandemia e o ”Brexit”.

A Presidência Portuguesa anunciou pois como grandes temas o Ambiente, a Transição Digital, a Dimensão Social, a Resiliência e a Europa Global, o foco desta presidência portuguesa vai ser a Europa Social e, na vertente externa, a realização da Cimeira UE-Índia e, como “tópico fundamental”, a relação entre a UE e África.

Perante as prioridades e temas acima referidos, qual será a posição expectável do governo húngaro?

Apesar das aparências (que por vezes iludem e outras não) e das prioridades sempre repetidas pelo governo de Orbán, entre outras – combate à migração, reforço da defesa das fronteiras exteriores da UE, o alargamento aos Balcãs Ocidentais, a defesa das minorias húngaras, actualmente em especial na Ucrânia, nestes primeiros dias do ano, a Hungria tem feito questão de demonstrar muita disponibilidade e compreensão para com a Presidência Portuguesa.

Quem está em Budapeste e segue com atenção a política interna, a imprensa e as redes sociais húngaras, provavelmente não passaram despercebidos os cerca de 50 artigos que saíram sobre a “Presidência Lusa” ou o post no Facebook da Ministra da Justiça, Judit Varga, responsável pelos assuntos europeus, logo no dia 4 janeiro, primeiro dia de trabalho do ano, que termina desejando os maiores sucessos aos portugueses, ou o facto de que Péter Szijjártó, Ministro dos Negócios Estrangeiros e Comércio, na passada quinta-feira, dia 7, num gesto pouco habitual, ter recebido o Embaixador de Portugal em Budapeste, Jorge Roza de Oliveira.

Por certo, a estes dois gestos, de duas das figuras mais destacadas do governo, não será estranho a empatia pública, a química (quem diria!) entre António Costa e Viktor Orbán. Não que que este não vá continuar a sua guerra – sem isso Orbán não seria Orbán e as próximas eleições aproximam-se a passos largos – contra os burocratas de Bruxelas, ”marionetes nas mãos de Soros György” – “a pessoa mais corrupta do mundo”, contra a Comissão e o Parlamento Europeu ou o PPE – Partido Popular Europeu, mas curiosamente, tudo fará para deixar de fora dos inimigos de estimação o seu “Amigo Costa”.

Deve-se também destacar que entre as prioridades da Presidência Portuguesa – a relação com África ou a Cimeira com a Índia e ao contrário do que seria ”lógico”, são vertentes da diplomacia externa que aproximam as partes, que podem ser consideradas coincidentes com os objetivos do governo de Budapeste.

Com efeito, visto com mais cuidado e pormenor, a estratégia definida pelo governo Orbán e lançadas em 2015, as chamadas ”Keleti Nyitás (Abertura ao Oriente)” e “Déli Nyitás (Abertura a Sul)”, África e América Latina, sobretudo Brasil, este muito reforçado com a eleição de Jair Bolsonaro. (Recorde-se que a excepção do Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, o único Primeiro Ministro da UE presente na tomada de posse em Brasília foi Viktor Orban).  Na verdade, se se pode dizer que politicamente Orbán e Szijjártó conseguiram alguns sucessos pontuais (excluindo no caso a amizade inquebrantável entre Putin e Orbán), há nesta capital, um consenso “crítico” que considera que ”as ditas aberturas a Oriente ou a Sul, espremidas são como um limão há vários dias fora do frigorífico”.

Numa última frase pode-se dizer que há elementos que indiciam que o governo de Orbán tudo fará para “não complicar a vida” a Portugal, a Presidência Portuguesa e que os dois PMs continuem a ser ”két jó barát”, dois bons amigos…

 

András Gellei, Budapeste, 10 de janeiro de 2021

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