A morte do Feiticeiro

por Henrique Delmar

Géza Csáth

Título original: A varázsló halála (A morte do feiticeiro)

Tradução: Arnaldo Rivotti

O feiticeiro, um homem antes dos trinta – com feição inteiramente desgostosa, enrugada e pueril de todo o ópio, cigarros e osculações – agonizava, na madrugada de quarta-feira de cinzas. Num salão de baile ou num banquete, não sei. Sentou-se numa pequena carlinga, indigente, sozinho. Sem sombra de dúvidas estaria estendido e inerte antes do nascer do sol, e ele mesmo já o percebera. Não estava triste por isso.

Tentou todo o tipo de feitiços pela última vez, claro – mesmo sobre si próprio, que era o maior risco de todos – mas nada conseguiu, e na madrugada da quarta-feira de cinzas decidiu esperar a morte numa grande e feda resignação. Tombou sobre duas cadeiras ao lado da mesa e fechou os olhos.

O seu pai, homem afável, forte e de ombros largos, foi o primeiro a chegar. Ainda pouco grisalho, denotava uma compleição rígida. – “Bem te disse que o ópio te iria arruinar”. – “Olha para mim, tenho cinquenta anos de idade!”. – “Tenho vivido de forma diferente, bem diferente”.

A sua mãe, uma mulher pálida e há muito morta, tapou-lhe o rosto com o lenço, e soluçando aconchegou a cabeça do feiticeiro ao seu peito.

– “Porque não quiseste viver como deve ser, meu filho! Se tivesses casado. Agora morres que nem um cão vadio. Uma mulher sempre te fecharia os olhos! Eu, estás a ver, não posso fazer isso, porque estou morta. Onde estão agora todas as mulheres que te amaram?”

– “Não amei nenhuma delas”, disse o feiticeiro. “Além disso, não tinha mais nada que fazer, que morrer diante delas”.

A avó do feiticeiro, uma velha mulher de touca e lunetas, acercou-se lentamente até ele. Numa das mãos levava um enrolador de novelos e na outra, uma gaiola com um canário no interior. No seu bolso trazia uma malha, uma meia tricotada para o feiticeiro.

– “Vou dar-te banho, e ainda hoje a outra meia estará pronta, com a qual serás enterrado”.

A avó tinha uma adoração especial pelo feiticeiro. Talvez o melhor de todos os seus netos. Chorava tão desesperadamente que teve de tirar as cangalhas. Mas não podia lá ficar, pois havia muitas mulheres a aglomerar-se à volta do feiticeiro, que tinham acabado de chegar.

– “Ver-nos-emos para além da sepultura”, disse a avó. Meteu o enrolador de novelos e a gaiola do canário debaixo do braço, e rezando, foi-se embora.

As mulheres andavam em bicos de pés em redor do feiticeiro moribundo, olhavam-no atentamente, e quando alguma se lembrava, dizia algo. Por exemplo:

– “Pobrezinho, muito em breve os teus olhos azuis ficarão vidrados”.

– “E as tuas unhas bonitas cairão das mãos delicadas, femininas e finas”.

– “Desculpe”, disse a terceira, “toda a sua vida teve olhos castanhos”.

– “E mãos largas, másculas e musculosas”!

– “Que poder ardente que ele tinha ao abraçar”.

– “Engana-se, abraçava-me sempre ternamente, suavemente, como uma donzela”.

– “Era tão seguro e reconfortante estar sentada ao seu colo, que não me importava de ficar assim por vários dias”.

– “Ele nunca me sentou no seu colo. Sentava-se sempre no meu.”

– “Era uma pessoa direta e de poucas palavras, e quando se irritava, ai daquela que lhe chegasse às mãos”.

– “Sua Alteza está equivocada. Antes pelo contrário era um homem simpático e de fala amistosa, e eu nunca o ouvi sequer levantar a voz”.

Era assim que as mulheres acastelavam o feiticeiro moribundo, que era reverenciado de maneira diferente consoante a forma como este se apresentara e comportara com cada uma delas.

– “Saiam daqui”, disse o feiticeiro; “Façam o favor de se irem embora, já é ruim o suficiente ter de olhar para as vossas velhas caras, que acarretam o caixão.

De facto, já o tinham trazido. Era um belo caixão de minério. O pai do feiticeiro tinha-o encomendado por duzentos e vinte e cinco forints; o cavalheirismo era código de família.

– “Tenho muito dinheiro para o meu filho”, disse ele ao agente funerário, “mas vou mandá-lo benzer, para que ele possa ter um belo funeral”.

O feiticeiro escovou rapidamente o cabelo no seu pequeno espelho de mão, arranjou os seus lábios – um sorriso zombeteiro, uma pose em que gostava particularmente de si próprio, e enviou um rapazinho para obter um colarinho limpo e uns punhos. Entretanto examinou a cobertura ocular, e com o seu lenço de bolso retirou o ornamento de renda de prata, que achou ofensivo e de mau gosto. Entretanto chegaram os colarinhos e os punhos. Trocou-os pelos antigos, entrou precipitadamente no caixão, e assobiando, quis deitar-se no forro de seda preta. Neste momento tinha acabado de chegar uma jovem donzela a correr envolta num pequeno xaile, esbaforida e lavada em lágrimas.

O mágico apoiou-se nos cotovelos, recordando que esta era a única rapariga que alguma vez amara. Ficou um pouco surpreendido, pois a coisa aconteceu há muito tempo, – há cinco ou seis anos – e a rapariga não tinha mudado nem um bocadinho. Usava saia curta, e o seu rosto jovem e doce não tinha envelhecido como o das outras mulheres.

– “Finalmente uma jovem”, disse o feiticeiro, saudando a rapariga; “Estou agradavelmente surpreso em rever uma bela jovem antes de morrer”.

A rapariga não ligou ao comentário desagradável e presunçoso, mas inclinou-se, abraçou-o, e implorou-lhe que se levantasse.

– “Das ewig weibliche zieht uns!…” disse o mágico com um sorriso irónico, apesar de não falar bem alemão e nunca ter lido Fausto no original. Embeveceu-se e beijou a rapariga nos lábios.

– “Agora, vai-te”, disse o feiticeiro, “isso para mim bastou; vai, és jovem e bela, pois há muitos homens às direitas por aí.” Deitou-se, e sorrindo, olhou com deleite para o seu rosto manchado de lágrimas e para os seus doces olhos dourados. Passado alguns instantes, voltou a falar.

– “Admito que em vez do ópio e de todos os beijos maus, deveria ter-me casado contigo, e tê-lo-ia feito se o meu pai ainda não tivesse pago o caixão”.

A donzela evocou todas as suas forças, tirou a venda do feiticeiro, puxou a almofada debaixo da cabeça, deitou-se contra o caixão, e retirou o feiticeiro para fora dele. A pobrezinha cansou-se com todo este esforço.

– “Meu doce amor”, disse o feiticeiro, numa voz calma e comovida, “fizeste por mim tudo o que uma mulher pode fazer por um homem; ter-me-ia levantado, não obstante o querido caixão ter sido pago ou não, pois amo-te, mas não consigo; percebo que não consigo; rogo-te que ajeites a minha cama”.

No alvoroço tinham caído os óculos escuros que o feiticeiro usava para evitar que outros lhe vissem os olhos; a donzela viu agora nos olhos do feiticeiro tanto quanto ele a amava, e que de facto se levantaria se pudesse. Então, ela compôs o caixão, e o feiticeiro voltou a subir com grande dificuldade.

– “Cobre-me com a venda”, disse o feiticeiro.

A rapariga tapou-os de novo.

– “Põe a almofada debaixo da minha cabeça, e vê se a tampa do caixão fica devidamente fechada; a pequena chave dourada deve permanecer contigo”.

Na verdade, já tinham trazido a tampa. A rapariga beijou novamente o feiticeiro nos lábios, que começavam a arrefecer, colocou a tampa e fechou-a. Escondeu a pequena chave no bolso do seu avental.

Depois partiu, pois, os parentes e irmãos do feiticeiro estavam a chegar, e ela não os conhecia.

 

Tela em destaque: Gulácsy Lajos

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