À mesa com P.

por João Miguel Henriques

Reencontro P. num jantar de amigos. Somos apenas três casais, para não melindrar muito o sentido de responsabilidade em tempos ainda pandémicos. Jantar marcado a horas de lanche, para respeitar o recolher obrigatório. É um indivíduo mais velho que eu, com quem sou obrigado a praticar o meu húngaro, pelo facto de ele desconhecer qualquer outro idioma que nos pudesse auxiliar a comunicação. Acabam sempre por me cair bem estas personagens do meu quotidiano magiar, proporcionado-me gratuitas aulas de língua (mais compreensão que expressão oral) e ao mesmo tempo obrigando-me a confrontar ideias estranhíssimas, opiniões esdrúxulas que jamais a minha imaginação seria capaz de conceber. É verdade, tenho mesmo de confessar que me agrada tomar contacto com estes exotismos de personalidade, mas claro está sem exageros, não mais que um par de horas, um convívio de amigos em plena crise viral. É como experimentar cuspir fogo ou comer pernas de rã, essas coisas que se fazem apenas uma vez na vida, ou muito raramente, e sempre mais por curiosidade do que por genuíno interesse ou predileção.

Ofereçamos ao leitor alguns exemplos. À imagem de vários outros húngaros, P. tem uma visão essencialista da identidade cultural magiar, encarando-a por conseguinte como verdade absoluta e imutável e não tanto o resultado sempre transitório de circunstâncias históricas e respectivo processamento ideológico. Mas P. vai até um pouco além daquilo que está na moda propangadear nos dias que correm, e assim coloca em causa o próprio cristianismo enquanto traço definidor do seu povo, procurando, com um idealismo que me comove, as verdadeiras raízes húngaras num suposto paganismo primordial, que Santo Estevão teria infamemente atraiçoado. Penso que terá sido noutra vida um dos carrascos de São Gerardo. Qual era a verdadeira religião dos húngaros?, pergunta-me não mais que retoricamente, sondando com olhar humedecido um passado ou futuro impossíveis de alcançar.

Além de se dedicar a estas importantes interrogações, P. é também aficionado de banhos de rio ou lago em pleno inverno, com a água a temperaturas negativas. Vinte minutinhos lá dentro, sem um queixume, que é assim que faz bem à saúde. Mostra-me fotografias e eu reajo com um arrepio de terror. Convida-me para ir com ele da próxima vez. Acho que está a brincar, mas não tenho a certeza, por isso solto uma gargalhada nervosa para afastar qualquer possibilidade de adesão a esse projecto de loucos.

E não resisto, caro leitor, a um último exemplo, a propósito de vida saudável. Vejo-o beber com estranha motivação, desprovida de qualquer prazer, um espesso líquido verde, de uma garrafa provavelmente adquirida, a peso de ouro, numa qualquer loja de produtos naturais. Tenho medo de perguntar o que é, mas supero o medo, parvo que sou, e pergunto mesmo. Segue-se uma longa torrente de explicações que procuro em vão seguir socorrendo-me dos meus conhecimentos de húngaro, particularmente fracos nesta área de obscuras poções para combater o tempo. Julgo perceber que faz bem a uma qualquer glândula, só que entretanto a voz de P. transforma-se na da professora do Charlie Brown, monótona e incompreensível. Sorrio porque, como disse, até lhe acho uma certa piada.

Soube entretanto que lhe deu agora para comer carne crua. Ou melhor dizendo, única e exclusivamente carne crua, dia sim dia não, nas mais intragáveis variedades que me coíbo aqui de nomear. Fá-lo também, alegadamente, por motivos de saúde digestiva e porque assim, cito, os dentes andam sempre limpos, nem é preciso escovar. Eu cá por mim suspeito que P. ande sim em busca de um regresso a um passado remoto, de carnes cruas e banhos gelados, onde talvez a vida fosse um pouco mais magiar e muito menos complicada. Só essa nobre ambição justificaria hábitos tão incomuns, pois se fosse só pela saúde então, digo eu, mais valeria estar quieto. É que P. sabe tanto como eu que andamos todos na mesma estrada, rumo ao mesmo inapelável fim.

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