A Hungria e as várias faces ou rodelas do salame. A Téliszalámi és a Szalámitaktika. A tomada do poder

por Fernando Lopes

Na Hungria um dos petiscos de eleição é sem dúvida o “Téliszalámi, o Salame de Inverno”. Primeira nota: também há o “nyári szalámi, o “salame de verão” que até é bom, sobretudo se “csipös”, se “picante”, mas não joga na mesma “liga gastronómica” do irmão de inverno.

O “Téliszalámi” é um tipo de salame húngaro baseado numa receita antiga. É feito de carne de porco mangalica e especiarias, como a pimenta branca, pimenta da Jamaica e outras. O “Téliszalámi” é curado ao ar frio e fumado lentamente. Não será propriamente o alimento com menos calorias, mas é o caso exato de o mal que fará pelo bem que sabe. Com um bom e encorpado vinho tinto, antes introduzido por uma palinka caseira com os seus 45 ou mais graus – pode ser de ameixa ou cereja – e não haverá frio de inverno, mesmo rigoroso, que nos assuste. Segunda nota: o téliszalámi corta-se e serve-se em rodelas fininhas, acompanhadas com pão, paprika, tomate, etc.,.

Para que se saiba que o “Téliszalámi” é levado muito a sério no “País dos Magyar”, já em 2007, a União Europeia, 3 anos apenas depois da adesão da Hungria (1 de maio de 2004), concedeu o estatuto de D.O. al Szegedi téliszalámi, ao “salame de inverno de Szeged”. O Ministério da Agricultura determina e impõe muitos regulamentos específicos sobre o que pode ser chamado de “Szeged (Szegedi)”. Terceira nota: Szeged é uma bela cidade universitária húngara. Há quem não hesite em considerá-la a “Coimbra da Hungria” e é lá que está a fábrica Pick. Não é por acaso que o “Pick szalámi” muitas vezes subtitui mesmo o Téliszalámi.

Afinal de contas o que tem a ver esta delícia com a Szalámitaktika, a Tática do Salame e da tomada do poder. Tem tudo e não tem nada, mas vale a pena tentar explicar, mesmo que seja apenas em poucas palavras. Quarta nota: Aqui, tomada de poder entende-se pelos métodos anti-democráticos como foi o caso do assalto ao poder pelo partido comunista húngaro após a II Guerra Mundial, com apoio do exército e da polícia política soviéticas estacionadas na Hungria.

Para levar o Partido Comunista rapidamente ao poder total e absoluto, a tática do salame foi o nome “hungarizado”, uma espécie de “Hungarikum negativo” no decorrer da qual, gradualmente,  todos os outros partidos políticos, foram aniquilados, apesar de terem ganho as primeiras eleições livres em 1945 e 1947, ou seja cortando de forma sistemática mais e mais rodelas, até ficar apenas um partido, o partido comunista, representante dos senhores do Kremlin no “País dos Magyar”.

A essência do método gradual e sistemático de dividir, enfraquecer, isolar e destruir os adversários, foi comum a todos os países futuros “socialistas”, sobre ocupação soviética. Quinta nota: o termo foi usado pela primeira vez por Mátyás Rákosi, secretário-geral do Partido Comunista Húngaro. O cinismo comunista era ilimitado e a propaganda, as “fake news” da época conhecia bem as leis e os métodos de Goebbels.

No pós-guerra a estratégia e os métodos do Kremlin foi a mesma para todos os países do bloco, com a prisão, expulsão, liquidação. Primeiro, os líderes e figuras mais destacadas dos principais partidos rivais foram presos ou condenados à prisão por acusações forjadas, ou forçados a fugir e à emigração. Houve aqueles que foram simplesmente sequestrados e deportados para a URSS pela polícia secreta soviética, como foi o caso de Béla Kovács, Secretário-Geral do Partido dos Pequenos Proprietários (centro-esquerda) que ganhou as primeiras eleições livres de 1945, com 57% dos votos.

Conseguem imaginar, se em 1975, a CIA prendesse durante o dia numa rua de Lisboa e metesse num avião Mário Soares ou Álvaro Cunhal? Foi isso que aconteceu a Béla Kovács, foi preso em Budapeste, na rua durante o dia, no dia 25 de fevereiro de 1947, por agentes estrangeiros, foi levado para Moscovo onde foi “julgado” e condenado a 20 anos pelo “independente tribunal soviético”, e enviado para um dos muitos Gulag da URSS. Voltou à Hungria em 1956.

Talvez seja melhor terminar de uma forma “mais ligeira e mais doce” e falar do nosso “Salame de Chocolate”, doce tradicional, confecionado com bolachas, manteiga, ovos e por vezes, regado com um pouco de vinho do Porto. O salame de chocolate tem a forma semi-cilíndrica, mas não é fabricado com carne, como os outros salames tradicionais, e é servido em fatias grossas. O chocolate e os pedaços de bolacha substituem a carne e a banha existentes nos salames tradicionais. O salame de chocolate tem algumas variantes que inclui nozes em pedaços, amêndoas e avelãs. Bom apetite para estas coisas boas e boas leituras.

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