A história de amor entre o refugiado húngaro e a jornalista da RTP que podia dar um filme da Disney

por LMn

Ele, László, veio para Portugal em criança, depois de a família aristocrática ter fugido da Budapeste comunista, e tornou-se com o passar dos anos um empresário de sucesso, depois de uma experiência como futebolista profissional. Ela, Manuela, ainda é recordada como um dos rostos da televisão pública. Há quase meio século que são casados.

László Hubay Cebrian faz nesta quarta-feira 75 anos. Vai celebrá-los com a sua companheira de há quase meio século, a jornalista Manuela de Sousa Rama, mãe dos seus dois filhos. Vivem numa quinta em Alcabideche e, apesar de apreciarem muito a visita dos cinco netos, nunca deixaram de trabalhar. Ele, com alma de empresário, lidera agora os negócios da família. Ela, que se orgulha de ter a carteira profissional 570, escreve livros (A Culpa Foi da Revolução, romance histórico, é o mais recente) mas também continua a fazer ballet e mantém o gosto pela restauração de móveis. Um casal feliz, diria até um casal que continua apaixonado (o carinho com que o marido fala com a mulher enquanto conversamos na espaçosa sala cheia de obras de arte não engana), mas um casal que poderíamos dizer igual a tantos outros casais portugueses, não fosse a pista que dá o nome do meu anfitrião aqui na Quinta da Ribeira: é um nome próprio húngaro, e o apelido um dos mais conhecidos da aristocracia magiar, com palácios assim chamados em Budapeste e entre os membros mais famosos da família, o genial compositor Jenö Hubay, elogiado por Franz Liszt em jovem. Ou seja, esta conversa em Portugal, tal como a história de amor dos dois em Portugal, só acontece porque a vida dos Hubay Cebrian teve momentos trágicos, desde obras proscritas, expropriações de bens, condenações à morte e, claro, o exílio, tendo o Estoril sido o refúgio.

Manuela – assim a trato, afinal deixou a RTP em 2002 mas é uma camarada de profissão (não sei se ela gostará muito da expressão)- conta-me que estão casados há 44 anos, mas que não teve grande impressão do futuro marido no primeiro encontro. “Achei-o arrogante”, diz, rindo. László, que conheci há uns anos num concerto de homenagem ao avô organizado pela embaixada húngara em Lisboa, está sentado no sofá ao lado, mas permanece calado. Explica-me Manuela que um casal amigo a tinha desafiado para um jantar com muita gente na casa de um norueguês, mas que ao lá chegarem percebeu que eram só eles e o dono do sítio.

“Senti-me desconfortável”, acrescenta. Mas numa ida de amigos ao Algarve, no final do verão de 1976, voltaram a encontrar-se, conversaram muito, simpatizaram abertamente e, uns meses depois, apaixonados, casaram-se. “Gostei logo dela, muito bonita. Uma mulher incrível até hoje”, lança László, rompendo o silêncio inicial, quando deu a palavra à mulher para contar como começou esta história de amor entre um refugiado húngaro e a jornalista da RTP, que apresentou uma série de programas que deixaram memória, desde Bom Dia Portugal a Canal Aberto, passando pelo Jornalinho e o Consultório de Família, e mais alguns ainda.

Façamos aqui um esclarecimento. Sim, o norueguês era László. A sua mãe, Edle, era uma norueguesa que casou com Andor Hubay Cebrian, artista plástico húngaro, filho do tal compositor célebre. Por Budapeste estar muito destruída ainda pela Segunda Guerra Mundial, e também porque já se sentia Estaline a mexer os cordelinhos para pôr a Hungria na esfera soviética, Edle foi no final da gravidez para Oslo, onde László nasceu a 18 de agosto de 1946. Aos 3 meses, porém, já o bebé estava na capital húngara. E numa conversa que tivemos em tempos para um artigo também no DN, ele não tem dúvidas a onde pertence, mesmo tendo de lá saído, forçado, com 2 anos: “O português tem este sentido muito especial para a palavra terra. A minha terra, diz-se. Portugal é a minha terra adotiva, da qual gosto muito mesmo, mas a minha terra é a Hungria.”

É complicado explicar a queda em desgraça dos Hubay Cebrian assim que os comunistas tomaram o poder na Hungria em 1948, afinal o compositor odiado, e com as obras proscritas, morrera em 1937. Explicou-me em tempos László que o suposto crime da família era a oposição feita por Jenö logo a seguir à Primeira Guerra Mundial ao efémero regime soviético húngaro liderado pelo primeiro-ministro Béla Kun, a ponto de ter de se refugiar na Suíça do “terror vermelho” de 1919. Finalmente vitoriosos, na sequência da derrota da Alemanha nazi em 1945, os comunistas húngaros apoiados por Moscovo vingaram-se e tudo fizeram para o compositor cair no esquecimento. A família foi considerada também antirrevolucionária e não fosse o passaporte norueguês (e a ajuda da diplomacia norueguesa) talvez o destino de Andor fosse bem pior.

Artista plástico, Andor recebeu uma proposta de trabalho da Vista Alegre, em Ílhavo. Cansado do longo inverno da Noruega, aceitou ser diretor artístico da Vista Alegre e em 1951 a família instalou-se em Portugal. “Vivíamos com algumas dificuldades, certamente o nível de vida dos meus pais não era aquele a que se tinham habituado. Mas nunca ouvi um queixume do meu pai”, salienta László, acrescentando terem sido ajudados pela família da mãe e pelos Espírito Santo e Bobone. Edle escreveu um livro de memórias intitulado Uma Vontade Indomável: de Budapeste ao Estoril (cuja versão portuguesa foi traduzida e adaptada por Manuela), destinado a ser um dia filme também.

Desiludido com a então escassa preocupação social da fábrica de porcelana com os trabalhadores, Andor acabou por mudar-se para o Estoril, onde viveu de dar aulas. Educado, mais a irmã Rozann, num ambiente cosmopolita, habituado a falar várias línguas (o português é perfeito), o jovem László inscreveu-se em Engenharia, que não chegou a frequentar, e logo se mudou para Economia, curso que tirou na Suíça, nos tempos em que – prova de ser um homem de muitos talentos – foi futebolista profissional no FC Zurique. “Eles gostaram do que viram, do meu jogar, e estive lá quatro anos na equipa.”

Quando se conheceram, Manuela, que estudou Direito, tinha já uma filha, Filipa, de um primeiro casamento. A lisboeta lançara-se entretanto numa carreira jornalística iniciada no regresso de uma etapa de vida em Moçambique. No PREC teve de dar inesperadas provas de força de personalidade e saiu-se muito bem: “Eu era diretora da revista Modas e Bordados, editada pelo grupo do jornal O Século e a segunda revista com mais tiragem em Portugal. A seguir ao 25 de Abril, houve um plenário de trabalhadores para pedir o saneamento de todos os diretores do grupo. Fui a única a aparecer, ouvi tudo o que diziam ter contra mim, respondi e no final tiveram de admitir não me poderem acusar de nada do ponto de vista profissional”, recorda Manuela. Diz ainda que se são tempos que não lhe deixaram saudades, tem amizades tanto à esquerda como à direita e, por exemplo, só pode elogiar a sua antiga chefe de redação na Moda e Bordados, Maria Antónia Palla, mãe do atual primeiro-ministro. “Conheci António Costa devia ter ele uns 7 anos, em casa da mãe a comer o arroz-doce da avó”, recorda-se, de repente, sempre sorridente.

Estou aqui à conversa, numa sala onde reconheço numa parede um retrato a óleo de Jenö Hubay, e noto que se conheci pessoalmente László antes da Manuela, ela é para mim uma velha conhecida, por causa das reportagens na RTP (onde entrou depois de recusar um convite para a ANOP, antecessora da agência Lusa) e muito também pelo Clube Amigos Disney, programa de grande sucesso nos anos 1980 na televisão pública. De certa forma, e além dos filhos Katinka e Istvan (nomes bem húngaros, de dois portugueses), esse programa – e peço-lhes aqui alguma desculpa pela comparação – foi o outro grande resultado da parceria László-Manuela, do refugiado húngaro que se tornou um empresário de sucesso em Portugal e da jornalista vedeta da RTP. “Eu na altura era administrador da Disney para a Península Ibérica e com a minha ideia do Clube Amigos Disney fui desafiar a RTP, que a seguir ao 25 de Abril tinha rasgado todos os contratos com multinacionais, a mostrar mais do que desenhos animados da Checoslováquia.” Sou tentado a ver aqui uma indireta ao Cinema de Animação, de Vasco Granja, que marcou a minha geração.

“Fiz dupla com o Júlio Isidro, que o László quis muito no programa, e suspendi a minha carteira de jornalista pois era ali sobretudo apresentadora. Gostei muito. E tivemos momentos incríveis como as duas idas de avião, com 300 crianças a bordo, à Disneyland na Florida”, conta Manuela. E acrescenta László: “Os CTT eram o copatrocinadores e as candidaturas eram através de um postal de 25 tostões. Houve um miúdo muito pobre de Santar que enviou um único postal e ganhou. Foi connosco aos Estados Unidos e nunca antes tinha saído da sua terra.” Há pouco tempo reencontraram esse miúdo, já homem de meia-idade. Nunca esqueceu a aventura. László também não: “Foi o programa de maior audiência da RTP.”

Pergunto a Manuela se, tendo os filhos nomes húngaros, usaram aquela estratégia de cada pai falar na respetiva língua. “Não. Não foi possível. Ele estava muito tempo fora. Foi sempre um pai carinhoso quando estava com as crianças, mas nunca mudou uma fralda”, diz, a rir-se. László tem pena de os filhos não falarem húngaro, língua em que ele é fluente e o ajuda a ter prestígio na pátria paterna, mas justifica-se com “o ficava fora de domingo à noite a quinta à noite, a trabalhar em Madrid. E sempre tive de viajar muito.”

László teve uma experiência de visita à Hungria ainda durante o comunismo, graças ao passaporte norueguês, “mas fui logo identificado. O nome foi reconhecido”. Manuela descobriu a terra do marido em 1993, já em democracia. Na altura achou ainda tristonha Budapeste, apesar da beleza da arquitetura, conjugada com o azul do rio Danúbio. Mas, conta ela, houve um evento relacionado com a Hungria muitos anos antes em Portugal e no qual deve ter passado perto do futuro marido sem sequer imaginarem: “Curiosamente e sem termos noção, o destino juntou-nos em 1956. Ambos participámos na manifestação/vigília dos portugueses, que desceu a Avenida da Liberdade até ao Largo do Município, de apoio à sublevação húngara de outubro de 1956, contra a ocupação da Hungria e a feroz ditadura comunista, aliás talvez um dos principais acontecimentos que conduziram ao desmoronamento do bloco soviético.”

Está na hora de Gerardo Santos tirar as fotos. Comentamos um móvel lindíssimo que Manuela diz, para surpresa nossa, ter achado “no lixo” e mandado só mudar as portas. Sobre o tampo de pedra está uma imponente peça de prata que um dia chegou a Portugal via embaixada norueguesa em Budapeste (ou em Viena, afinal os Hubay Cebrian viveram tempos áureos no Império Austro-Húngaro), entregue por alguém devotado à família, e que sabia ser dos palácios deles, mas que não se identificou. “Recebemos várias peças assim, no tempo dos meus pais. Até uma pintura da minha mãe, aquela ali na parede, mas nunca pudemos agradecer”, explica László.

László escolhe com carinho as palavras: “Tem sido extremamente fácil criar uma vida em conjunto com a Manuela ao longo dos anos, pela pessoa que ela é, o amor que nos une e a amizade que sentimos um pelo outro. Estas vertentes são extremamente importantes para manter um casamento de muitos anos como o nosso, com o mesmo entusiasmo do início.”

Despeço-me. Desta vez, não perguntei a László o que acha da Hungria atual e de todas as polémicas em torno do primeiro-ministro Viktor Orbán, hoje com a imprensa de boa parte da Europa a chamar de ditador mas que na juventude foi um dos heróis, relembra-me ele sempre, da queda do comunismo, regime ao qual nunca perdoou o que fez à família.

leonidio.ferreira@dn.pt

Este artigo foi publicado originalmente em dn.pt

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