A fama dos Húngaros

por Pál Ferenc

por Pál Ferenc*

No dia 20 de agosto comemora-se a fundação do Estado Húngaro, como também o grande feito do fundador, D. Estêvão I, ou Santo Estêvão que converteu este povo nómada, oriundo do Oriente, num povo católico e europeu.

Ser europeu ou não, pertencer à Europa ou não – era durante muito tempo uma questão latente no meio do povo húngaro, porque mesmo hoje há muitos que dizem, com as palavras do poeta Endre Ady, que a Hungria é um “País Jangada”, que vacila entre Este e Oeste. Mas a Europa também aceitou dificilmente os húngaros, frequentemente identificando-os com os Hunos, cuja memoria nefasta sobrevivia séculos e séculos.

Contudo houve épocas quando no Ocidente se alterava esta imagem negativa dos húngaros. Com a ameaça turca a Hungria tornou-se um país importante. O prestígio de um poderoso país católico nos confins do Leste da Europa, defensor dos valores cristãos e ocidentais, as relações dinásticas dos reis húngaros com os monarcas da Europa Ocidental e da Península Ibérica, a cultura cavaleiresca introduzida e cultivada em alto nível na Hungria pelo rei Roberto Carlos etc., foram momentos que contribuíram para a fama sólida na Hungria nos séculos XIII-XVI pela Europa fora.

Por exemplo na França, a partir dos séculos XIII e XIV, muitas obras poéticas têm por personagens principais reis ou príncipes húngaros. Assim são, por exemplo, o Dieudonné de Hongrie / Charles le Chauve , nascido no final do século XIV ou a novela arturiana do século XIV ou XV, intitulada Le Roman de Messire Charles de Hongrie , cujas partes introdutórisa e final, decorrem na Hungria e os valentes húngaros aparecem pintados com cores positivas.

Deve-se talvez a esta imagem simpática da Hungria que a partir do início do século XVI, durante quase cem anos, a Hungria tenha sido um ponto de referência em Portugal.

O ponto de partida foi, em parte, uma razão dinástica, pois o historiador da família de Avis, Fernão Lopes mencionou primeiro os laços com a Hungria, querendo habilmente introduzir no ambiente mental Português a ideia da “origem húngara” tendo iniciado com isso, por assim dizer, uma campanha pró-húngara que durou ao longo do século XVI.

É um momento importante, visual, desta campanha a tábua genealógica pintada em pergaminho pelo flandrino Simon Bening, na qual entre os antepassados dos reis Portugueses figuram Santo Estêvão, rei Húngaro (997/1001-1038) e a sua esposa, Gisela; o príncipe Santo Emerico (Imre) e Vazul, como sucessores; mas também é possível ver nesta tábua os pais de Santo Estêvão, Zeicha (972-997) e Saraloth (ou seja, Géza e Sarolt, em Húngaro vernáculo).

A imagem positiva da Hungria reflete-se também nas obras de Gil Vicente. No Prólogo da peça inserida no Auto da Lusitânia, por exemplo, podemos ler que um príncipe, símbolo da nação Portuguesa, chamado Portugal, partindo da Grécia, passa pela Hungria e, assim, chega até a Lusitânia, virgem-símbolo da terra dos lusos. Em Dom Duardos, de temática cavaleiresca, há duas referências aos Húngaros e à Hungria. No verso 641, a Infanta Flerida diz que as rosas mais aromáticas são as da Hungria:

Estas rosas

son de las mas olorosas.

Seran da casta de Ungría:…

e no verso 1166, entre os diferentes pretendentes menciona-se um príncipe da Hungria:

Teneis Príncipes en Ungría y en Francia,

que vos muy bien mereceis.

A presença da Hungria e dos húngaros na mente dos portugueses contribuiu, em grande parte, para que a Hungria pudesse aparecer como um país mítico e progenitor dos reis portugueses como menciona Camões três vezes n’ Os Lusíadas. Mas Camões, entre outras fontes, tem como antecedente a novela de cavalaria de João de Barros – A Crónica do Imperador Clarimundo, já com o seu título mais extenso fez referência à origem Húngara dos reis Portugueses: “Crónica do Imperador Clarimundo, donde os Reis de Portugal descendem, traduzida da língua Húngara à nossa Portuguesa”. Esta afirmação prévia fica reforçada pelas palavras do autor, no prólogo, onde escreve que foi de um fidalgo alemão, Carlim Delamor, que soube que D. Henrique (ou seja, o pai de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal) era neto de um rei Húngaro.

Há também outra obra que informa sobre os húngaros, e mais exatamente. N’A Crónica do Imperador Maximiliano a trama tem lugar já não num país de referência longínqua e vaga, como o foi a Hungria nas novelas anteriores, mas num país que o autor desconhecido da Crónica do Imperador Maximiliano parecia conhecer em alguns aspetos. Por exemplo, sabia que Buda era a capital do país e que ficava nas orilhas do Danúbio, e ainda que esta zona era montanhosa, coberta de bosques e florestas, porque os pais de Maximiliano (Filénia, filha do rei Venceslau e o seu amante, o príncipe Reduardo) fogem quando a princesa já está grávida, pelos montes de Buda.

É curioso que neste romance nascido no final do século XVI – quando a Hungria já sofria a dominação turca — perdure a imagem positiva da grandeza da Hungria, que a família real Portuguesa, desde o início do século, divulgara com intuitos dinásticos. A genealogia proposta na Crónica do Imperador Maximiliano liga a origem Húngara – representada pelo inventado rei Venceslau, avô de Maximiliano – com a família dos Habsburgos, em ascensão, e o protagonista é o imperador Maximiliano (1459-1519) coroado em 1486, e que funda a grandeza da dinastia realizada pelo seu neto, Carlos V (1500-1556).

Pensa-se que, para os Portugueses, que perderam a sua independência na batalha de Alcácer Quibir em 1580, servia de consolação o que este romance sugeria, ou seja, que o monarca espanhol, representante da opressão, era também de origem Húngara.

 

*Prof. Dr. Pál Ferenc, tradutor. Um dos fundadores dos estudos de portugues e da lusofonia na Hungria.

 

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