A Constância dos Sonhos

por Garry Craig Powell

Decidi com quinze ou dezasseis anos que eu queria ser escritor. Poeta, claro. E lembro-me dos outros sonhos que tinha na altura: queria o amor de uma mulher linda (claro!) e nobre espiritualmente, e viver no campo, numa casa antiga. O curioso é que cinquenta anos depois, os meus sonhos são iguais! Enfim, pode-se dizer que tornei-me escritor – ao menos escrevi livros – mas sem muito êxito, francamente. E tive o amor de mulheres bonitas, e até nobres – ao menos pensava que sim na altura – mas perdí-las todas. O único daqueles sonhos da minha juventude que realisei foi arranjar a casa no campo. Uma casa construida em 1780, portanto bastante antiga, embora não pareça, infelizmente, porque foi renovada recentemente, ao estilo moderno-burguês. Então considero que a minha vida tem sido uma falhança?

Nem por isso. No primeiro lugar, estou vivo, mais ou menos, e esses sonhos podem se realisar ainda. Talvez seja pouco realista esperar o successo literário com a minha idade avançada, e ainda menos realista esperar o amor, mas nunca se sabe. Sou romântico e continuo a acreditar na possibilidade do amor. Tenho menos confiança na possibilidade do êxito literário, dado o prejuízo contra os homens brancos cisgéneros e heterosexuais no mundo anglo-saxónico, mas o meu romance tem a qualidade necesária, e o milagre podia acontecer. Nem sequer quero vendas grandes, nem a fama – é apenas uma questão de querer realisar a ambição de ter feito alguma coisa útil no mundo. E se não fosse o que escrevi, não foi mais nada.

Mas por outro lado, pode-se pensar que tais ambições, e mesmo o desejo humano para o amor, sejam sonhos superficiais, primitivos, e imaduros. Quando eu morrer, vai fazer uma diferença se realisasse os sonhos da minha vida? Talvez não. Estou a ver que a única realidade que tem importância é a espiritual, e quem tiver qualquer éxito mundano sem dar-se conta desse mundo imaterial, realmente não conseguiu nada. Temos de tentar fazer qualquer coisa nesta vida, ou por quê vivemos? E acho que a minha ambição é digna. Penso que tenho coisas a dizer ao mundo que têm valor. No entanto, a dignidade da vida humana reside mais no esforço que fazemos, e na pureza das nossas intenções, do que na opinião dos outros. Uma derrota nos olhos do mundo não será necessariamente uma derrota, vista da perspetiva da eternidade. Ao menos, espero que seja assim.

E com estas palavras, caros leitores, despeço-me das vossas excelências, porque vejo-me obrigado a desistir de escrever esta crónica, por falta de tempo e falta de dominío da vossa língua nobre. Que sejam abençoados. E se quiserem conhecer os meus pensamentos, ao menos em inglês, podem seguir a minha página de autor em Facebook, ou visitar o meu site.

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