A casa (Parte I)

por Luís Serpa

A história é antiga e conhecida. Há milhares delas, todas iguais, por esse mundo. Um pastor deita distraidamente duas sementes à terra vazia. Inesperadamente, essas sementes vingam e transformam-se em duas árvores à sombra das quais outros pastores vão plantando as suas tendas. Um dia um deles constrói ali uma casa, uma estrutura frágil, de passagem. Ao longo dos anos essa casa vai, ela também, crescendo e solidificando-se. Hoje é uma velha construção, sólida, que alberga uma família cujos antepassados, um dia, ali ergueram uma frágil casota de terra e palha. À sua metafórica sombra outras casas se foram erguendo; as árvores – hoje centenárias – deram origem a outras árvores. De passagem o lugar transformou-se numa aldeia, numa vila cujos habitantes alimentam e negoceiam com os povos que por ali passam e buscam sombra, água, comida. Não sabemos o nome dessa vila, mas podemos imaginar que as árvores são carvalhos, de tão sólidas. Da casa, pessoas partiram e a ela regressaram. Algumas guerrearam-se, outras ajudaram-se, amaram-se, odiaram-se. Bebés nela nasceram, velhos morreram.

Foi nessa casa que Armando nasceu, faz agora mais de setenta anos. Deixou-a há muito tempo, para a tropa, então obrigatória. Uma vez esta terminada fixou-se na cidade e só muito esporadicamente voltou à sua aldeia natal. Hoje a casa pertence-lhe, mas ele não lhe pertence. Está habitada por dois dos seus sobrinhos que nunca dali saíram. Armando conhece-os mal. Provavelmente não os reconheceria, se por acaso – pouco provável – se cruzasse com eles na rua. Há muito deixaram de lhe pagar renda, mas ele sempre insistiu na propriedade: a casa era dele. As árvores eram as da sua infância, a elas trepou, delas caiu, ao pé delas acariciou o primeiro seio, deu o primeiro beijo. Os sobrinhos foram para lá viver com uma missão: manter a casa, repará-la, não a modificar. É suficientemente grande e sólida para albergar duas famílias. Armando quer recuperá-la, passar os seus últimos anos na casa onde nasceu mas hesita: não tem filhos e a perspectiva de a casa ficar vazia depois da sua morte desagrada-lhe. Pensa num acordo com os sobrinhos: dá a cada um deles um sítio para viverem e quando morrer ficam proprietários da casa de família, sem possibilidade de a venderem. Eles não estão muito pelos ajustes: querem «desenvolvê-la». Isto é, ampliá-la, transformá-la em apartamentos e vendê-los um a um.

Armando acredita na linearidade do tempo. Imaginou a história dos pastores e da casa só sabe que pertenceu ao seu bisavô, mas vê, quando olha para trás, uma linha recta que começou nesses longínquos pastores e hoje termina nele. É um fim móvel, um fim que se desloca no tempo, com o tempo. Contudo, sem filhos não tem para onde ir. Os sobrinhos – engenheiros como ele – vêm o tempo como as subidas e descidas de um gráfico, as mudanças de direcção de um rio ou o vento, que hoje está norte e amanhã sul sem por isso deixar de ser vento. A casa caiu-lhes no colo há muitos anos, vêem-na como sendo deles. O tio Armando não passa de um velho que quer parar o tempo, impedi-lo de os tornar ricos.

Armando hesita em ceder, apesar de saber que a casa já passou por inúmeros conflitos, que é hoje o resultado de muitos «desenvolvimentos». O passado só nos parece estático porque não o podemos mudar – ou melhor, só através das palavras o podemos mudar. Nele, não podemos agir. Na verdade, o passado é apenas uma sucessão de presentes dos quais alguns são tão tumultuosos como o actual. «Talvez, no fundo, a melhor forma de respeitar o passado desta casa seja deixá-los mudá-la uma vez mais», diz para si próprio. «Mas só depois de morrer. Eles que construam o futuro com os meus ossos, não com os meus olhos.»

II

«Caros Mário e Pedro,

Uma pequena nota para vos informar que chegarei a Querquais dentro de duas semanas. Preparem-me o anexo do fundo do jardim e marquem uma reunião com o notário. O solar vai ficar para vocês, mas só depois de eu morrer. Até lá, terão de esperar. Um desenvolvimento que não se faça esperar não é digno desse nome. O tempo é um privilégio, um luxo e como todos os privilégios requer tempo para sedimentar e como todos os luxos tempo para ser devidamente apreciado.

Farei de vocês meus herdeiros universais: tudo o que tenho – com excepção dessa casa – foi feito por mim, mas é a ela que o devo, tal como a última folha de uma árvore deve a vida à raiz. Pouco me interessa o que farão com o que vos deixarei. Já cá não estarei e o que fiz, fiz para mim, não para o tempo. O futuro nunca me interessou e não é agora que vou mudar. Nem eu nem ele, de resto.

Vosso

Tio Armando»

 

 

(Cont.)

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