A beleza imperfeita das oliveiras da Capela de Santo Amaro

por LMn
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“Troncos ocos, cariados, retorcidos, deformados, mas de grande beleza paisagística e efeito cénico”. É esta a descrição das quatro oliveiras da Capela de Santo Amaro, feita pelo ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas quando, em 2008, as classificou como Arvoredo de Interesse Público.

A distinção deveu-se ainda à longevidade das quatro árvores, que contribuiu para a beleza imperfeita dos troncos e ao facto de fazerem parte da memória histórica da capela de Santo Amaro, igualmente antiga, que é há muito “local de culto e devoção popular”.

A classificação reconhece o seu intemporal “interesse cultural, pedagógico e paisagístico” e pretende preservá-las, ajudando a manter viva a memória de um tempo anterior à expansão da moderna cidade de Lisboa.

As quatro oliveiras da Capela de Santo Amaro localizam-se nos espaços ajardinados em torno da igreja e muitos passam por elas sem se aperceber do seu interesse, já que são árvores relativamente baixas e de copas pouco exuberantes: a oliveira mais alta (processo de classificação KNJ1/513) terá pouco mais de seis metros de altura e a que tem as ramagens mais amplas (KNJ1/514) apresenta um diâmetro de copa que em pouco ultrapassa os sete metros. A mais pequena e delgada (KNJ1/515) e a quarta das oliveiras (KNJ1/516) elevam-se a cerca de cinco metros.

Todas partilham, no entanto, os troncos fendidos, retorcidos, que se dividem e voltam a unir, entrelaçando-se e separando-se de novo, como se tivessem saído do atelier de um escultor. São estas imperfeições nos troncos das quatro oliveiras (e nos troncos das oliveiras em geral) que destacam a sua beleza e revelam a sua provecta idade.

Oliveiras da capela de Santo Amaro terão mais de 470 anos

Ninguém sabe ao certo quando foram plantadas as quatro oliveiras da Capela de Santo Amaro. O que se sabe é que os troncos das oliveiras se tornam ocos à medida que o tempo passa. Esta perda de madeira no interior dos troncos é sinal de longevidade, embora impeça a aplicação dos métodos científicos habitualmente usados para descobrir a idade das árvores – a quantificação de carbono-14 ou a contagem dos anéis da madeira.

Na altura em que foram classificadas, a sua idade foi estimada em cerca de 457 anos e, em 2013, o seu valor patrimonial foi avaliado em perto de 150 mil euros (por árvore e considerando o conjunto) por uma dissertação realizada no ISA – Instituto Superior de Agronomia, que analisou a condição e valor de várias árvores de “interesse público” (avaliou também a primeira árvore lisboeta classificada – o Cupressus lusitanica do jardim da Praça do Príncipe Real, em cerca de 89 mil euros).

Pensa-se, assim, que as quatro oliveiras datem do período entre 1540 e 1550, o mesmo em que foi erigida a capela, um monumento nacional cuja construção remonta a 1549. Um dos seus arquitetos terá sido Diogo de Torralva, que esteve envolvido no desenho de outras reconhecidas obras portuguesas, como é o caso do Claustro de S. João III no Convento de Cristo, em Tomar.

Assim, as oliveiras da capela de Santo Amaro e a própria ermida serão do tempo de D. João III que, por esses anos, consolidava a presença dos portugueses no mundo e submetia o Reino à vontade da Inquisição e das perseguições do Tribunal do Santo Ofício. Do Alto de Santo Amaro, com vista privilegiada para o Rio Tejo, as jovens oliveiras terão assistido, assim, à partida de muitas embarcações com destino ao Brasil e diversos pontos da costa de África e da Ásia.

Terá sido certamente depois, embora não se saiba precisar quando, que se iniciou a Romaria de Santo Amaro. A festa religiosa, que ainda se realizava no início do século XX, terá relação com a crença de que Santo Amaro curava as pernas e braços partidos. Esta é, aliás, uma crença retratada no conjunto de azulejos que sobressai no átrio semicircular da capela, uma área ampla com características da arquitetura renascentista.

Hoje a romaria ganhou cariz pagão e, embora continue a realizar-se bem perto das velhas oliveiras da Capela de Santo Amaro, celebra-se com música e gastronomia, em finais de junho, a encerrar as festas populares da cidade de Lisboa.

Arvoredo classificado em Alcântara além das oliveiras da Capela de Santo Amaro

As oliveiras da Capela de Santo Amaro não são as únicas árvores classificadas em Alcântara. A freguesia abrange parte do Parque Florestal de Monsanto, uma enorme mancha verde repleta das mais variadas espécies e é ali que se localizam os outros dois conjuntos de arvoredo que mereceram a distinção de “interesse público”:

  • Núcleo de sobreiros (Quercus suber) que ladeiam a entrada do Parque infantil do Alvito. Têm mais 60 anos (datam da plantação inicial do Parque Florestal do Monsanto) e destacam-se pelos seus troncos, envoltos por cortiça virgem, espessa e fendilhada (nunca foram descortiçados). Foram classificados em 2006.
  • Povoamento de pinheiro-das-canárias (Pinus canariensis) com 1400 árvores que ocupam mais de 2,5 hectares, sendo por isso considerados como a maior mancha de pinhal desta espécie em Portugal. Foram classificados em 2000, pela raridade, significado paisagístico e singularidade do conjunto

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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