A Alternativa ao Cristianismo

por Garry Craig Powell

Confesso que não sou católico, e mais: durante a minha vida quase toda, fui ateu. No entanto, ontem, quando a minha mulher Dayana convidou-me a acompanhá-la à igreja em Caminha, fui com ela, à Missa, por várias razões. Primeiro, porque ela recuperou a fé recentemente, depois de a perder quando a mãe morreu com cancro, e eu quis dar-lhe apoio. Segundo, porque a igreja matriz de Caminha é um exemplo magnífico do gótico tardio português – data do reinado do ‘Príncipe Perfeito’, D. João II, por volta de 1480, e já mostra na escultura e nos arcos redondos algumas feições do estilo manuelino que seguirá em breve. Sempre adorei as igrejas medievais, essas obras primas da arte da primavera da cultura ocidental, e dentro delas sentia-me não só em casa, por assim dizer, mas também como embalado no útero maternal. Por mais paradoxal que pareça, a verdade é que tenho um tipo de vocação espiritual, apesar de não ser propriamente cristão. E eis a terceira das razões porque aceitei a proposta da minha mulher: ainda não desisti de a minha busca espiritual, apesar de ter 66 anos e de ter falhado até agora.

De fato, a experiência foi, se não sublime, para mim, ao menos reconfortante. A igreja estava cheia, tão cheia que muitas pessoas ficaram de pé, e ainda por cima, haviam muitos jovens na congregação, até casais com crianças pequenas. O próprio padre da paróquia é novo: deve ter trinta anos, ou pouco mais. Portanto a fé está viva, ao menos no Minho, e isso dá-me esperança. Por quê? Por que aqui, e provavelmente em toda a parte, a religião é uma expressão do sentido comunitário, da força da convicção de uma cultura, da autoconfiança e da autoestima. Enquanto em muitas partes de Europa, como no meu país, a religião já é moribunda, ou mesmo morta, e a nação está a perder o orgulho, e sente tanta vergonha do passado nacional que está obcecada com a autoflagelação – e penso que os dois fenómenos estão intimamente ligados – aqui, ao menos, há uma comunidade que não tem vergonha de si. É saudável. E também acho encorajante que as pessoas do Minho têm uma aspiração à vida espiritual, e dão uma hora por semana, no mínimo, a meditar nos temas eternais. Isso não é sentimentalismo. Reconheço que algumas das pessoas na Missa vão só por costume, ou porque querem ser vistas lá, e que não todos sejam cristãos de fé profunda. Naturalmente. Mas podemos dizer que nesta região, ao menos a gente não se abandonou totalmente ao materialismo e ao hedonismo, como parece ser o caso nos países do norte de Europa.

Volto a mim mesmo. Ando a reler Os Irmãos Karamazov de Dostoyevski, e fico pasmado, como sempre a ler os grandes romancistas russos, ou a ver os filmes do maior cineasta, Tarkovski, que a maior preocupação deles é a existência de Deus, o significado da vida, e a ética que resulta de crer ou não crer em Deus. Se Deus não existe, afirma Smerdyakov, o assassino, seguindo as doutrinas  progressistas do irmão intelectual, Ivan, então tudo é permitido. Não há base para uma moralidade. Os humanistas discordam, evidentemente, dizem que podemos evoluir uma moralidade com base no amor do homem para os demais. Em princípio, têm razão, e confesso que eu próprio sustentei a mesma tese durante a maior parte da minha vida. No entanto, a dificuldade é em concordar qual é o objetivo da existência humana, e em qual consiste o bem. Na prática, quando abolimos a religião, como foi o caso na União Soviética, quem legisla a moralidade é o partido, ou ou ditador que o domina, um Lenine ou um Staline. O caso Nazi é quase igual, embora a religião não fosse eliminada na Alemanha, se não subjugada às necessidades do estado e do partido Nazi.

Estou consciente que os ateus racionalistas defendem outra posição: propõem uma sociedade bondosa, totalmente justa, equitativa, e livre. O problema é que nunca vimos nenhuma sociedade assim. E Jordan Peterson, falando do arquétipo de Deus e o instinto religioso, diz que realmente não temos a escolha entre uma religião e uma sociedade completamente racionalista e ateia. Tão profunda é a necessidade humana de ter uma fé, que a eliminar a fé tradicional, estaremos obrigados a adotar outra fé, igualmente irracional, igualmente dogmática. E quais são as nossas opções? O budismo? Pode ser mais racional que o cristianismo, e de fato muitos intelectuais ocidentais aderiram à essa religião, mas realisticamente é uma tradição demasiado alheia à experiência europeia. As alternativas realistas são o Islão, uma possibilidade cada vez maior nos países de imigração muçulmana, onde a população muçulmana está a crescer de uma maneira exponencial – e infelizmente, parece que será um Islão extremista, jihadista, fanático, a julgar pelo terrorismo dos últimos anos – ou então reste-nos a possibilidade da nova fé dos guerreiros da justiça social, de Black Lives Matter e Critical Race Theory, da política da identidade e o neo-Marxismo. A cultura da cancelação, que exige a obediência total aos seus preconceitos e crenças – uma cultura intolerante e autoritária.

Cá por mim, prefiro o cristianismo, mesmo com os defeitos evidentes da igreja católica, e das outras igrejas cristãs. Não suponho que um regresso à fé seja uma possibilidade realista em Europa, especialmente nos países protestantes, mas é uma pena. A alternativa é pior: não menos que a destruição de uma continente, e como sustentava Milan Kundera, da única cultura na história mundial que sequer tentou apostar na liberdade do indivíduo.

 

Copyright © Garry Craig Powell, 2021

Imagem em destaque: Dayana Galindo

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