15 de dezembro de 1907. Nasceu Oscar Niemeyer: o arquiteto que desenhava (e amava) curvas

por LMn

Fez da sua arquitetura uma ode às curvas, às quais dedicou um poema, a obra e a vida toda, quase 105 anos dela. Para Oscar Niemeyer significavam beleza, liberdade, invenção, justiça, solidariedade. Então ele pegou no betão armado e tornou o mundo um lugar mais bonito.

Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas nuvens do céu, no corpo da mulher amada. De curvas é feito todo o universo. O universo curvo de Einstein.” As palavras são do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, que as ordenou num poema: o Poema da Curva.

A curva tem ritmo, harmonia, calor, sensualidade. Se fosse música, seria bossa-nova, em arquitetura é, sem dúvida, Niemeyer. “Minha música, quando sai boa, parece música do Tom Jobim. E na minha cabeça, música do Tom é casa do Oscar”, escreveu Chico Buarque num texto publicado por ocasião do centenário do arquiteto brasileiro que fez das curvas a sua marca, copiada em todo o mundo, o que não o zangava, antes honrava, “quando um sujeito copia uma coisa minha eu acho que ele é gentil, quer dizer que gostou”.

O complexo da Pampulha, em Belo Horizonte, o Palácio da Alvorada, a Catedral ou a Praça dos Três Poderes, em Brasília, o Sambódromo, no Rio de Janeiro, o colossal Edifício Copan, em São Paulo, a sede do Partido Comunista Francês, em Paris, o prédio da editora Mondadori, em Milão, a mesquita em Argel, e tantas, tantas outras construções que saíram do lápis e da imaginação de Niemeyer, quase confundindo arquitetura e escultura e dando à beleza funcionalidade e vice-versa, são autênticos monumentos à curva, que o arquiteto considerava a solução arquitetónica natural.

“Cada arquiteto faz aquilo em que acredita. Uns vão mais pelo lado utilitário. Outros, mais pela forma. Arquitetura é feito pintura, é pessoal. Cada arquiteto tem de fazer o que está na sua própria cabeça, o que ele gosta. Não o que pretendem que ele faça. Aqui mesmo, eu trabalho com tanta gente, que se eu der um peitoril para cada arquiteto desenhar, cada um vai fazer um peitoril completamente diferente. O desenvolvimento do concreto [betão] armado ajudou muito. O concreto dá liberdade. Eu gosto da forma, dos grandes vãos, em que a curva é a solução natural. Hoje a gente pode tudo”, disse numa entrevista.

Ele pôde. Viveu até às vésperas de fazer 105 anos e até ao último sopro de vida – Niemeyer dizia que a vida era um sopro, “a gente vem, conta uma história e todo mundo esquece depois” – amou muito, trabalhou muito, fumou muito, conversou com os amigos muito, foi comunista muito, disse palavrões muito e foi livre muito.

Tinha medo de andar de avião, nunca gostou de dinheiro, não se dava grande importância, os amigos diziam que era de uma simplicidade e uma modéstia desconcertantes, passava os dias no ateliê, em Copacabana, com vista para o mar e as garotas de Ipanema, das oito da manhã às oito da noite, onde além de criar recebia gente, para trocar ideias. O mundo, o Brasil, seu país, a pobreza, as desigualdades, as injustiças, preocupavam-no e passou a vida a falar disso. Comunista convicto e inabalável – nem a queda do Muro de Berlim e da União Soviética beliscaram as suas convicções -, via a arquitetura como uma forma de intervenção.

“O arquiteto deve pensar que o mundo tem de ser um lugar melhor, que podemos acabar com a pobreza. Aqui no Brasil, ainda há a luta de classes. Por isso, é importante que o arquiteto reflita não sobre a arquitetura, mas como a arquitetura pode resolver os problemas do mundo. O arquiteto tem de ser sempre político. Uma pessoa tem de ajudar a outra – solidariedade. O resto não é nada. Se você olhar para o cosmos, você é tão pequeno, você é tão sem importância. Temos de ser mais simples e não acharmos que somos importantes. Ninguém é importante.”

Nem ele, que ganhou o prémio Pritz­ker, em 1988, a maior distinção internacional na área da arquitetura, foi considerado um génio – “que génio, que o quê, isso é bobagem” – e um dos cinco melhores arquitetos do século XX, que trabalhou com Le Corbusier no projeto da sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, e que, com Lúcio Costa, seu primeiro patrão, criou do nada uma capital, Brasília, em três anos.

Oscar Niemeyer atravessou um século inteiro, otimista por natureza, pessimista por convicção, cruzando as Curvas do Tempo, título que deu a um dos seus livros de memórias, de forma serena. “Tenho uma maneira de viver tranquila, não gosto de fazer inimigos, não critico ninguém. Só faço o que gosto, e acho que cada um deve fazer o que quer, é um modo de vida.”

A dele começou no dia 15 de dezembro de 1907, no Rio de Janeiro, e acabou a 5 do mesmo mês, em 2012, na mesma cidade, a cinco dias de completar 105 anos. Numa entrevista, quando lhe perguntaram se gostaria de ser lembrado como o arquiteto de Brasília, respondeu que não. Preferia assim: “Como um ser humano que passou pela Terra como todos os outros – que nasceu, viveu, amou, brincou, morreu, pronto, acabou!”

Adorava mulheres. Foi casado com uma durante 70 anos e aos 99, viúvo, voltou a casar-se. Apesar do poema e do seu amor pelas mulheres confessado em todas as entrevistas que deu – “aos 93 anos, só digo que de mulher a gente gosta até morrer” -, quando lhe perguntavam, recusava associar as curvas da sua arquitetura às curvas femininas.

“Nem montanha nem mulher. O mundo é cheio de curvas. Se a reta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto [betão] buscar o infinito.”

Fonte: DN|Catarina Pires

Ver mais:

Wikipedia

Print Friendly, PDF & Email

Também poderá gostar de

O nosso website utiliza cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Aceitar Ler Mais

Privacidade